Mãos jóia

Easily copy and paste Android and iPhone emoji into Twitter, Gmail, or Facebook. Quickly find or get emoji codes with our searchable online emoji keyboard! See how emoji looks on other devices and create emoji pictures! Copy and paste every emoji with 👍 no apps required. 😊🥺😉😍😘😚😜😂😝😳😁😣😢😭😰🥰 Nas mãos de egípcios, cristãos e muçulmanos, a região da Núbia desenvolveu-se ao longo dos anos incorporando um pouco da identidade de quem passou por lá. Não é por isso de admirar que os Núbios sejam os responsáveis por várias maravilhas arquitetónicas do Egito , principalmente as que se localizavam nas proximidades do Rio Nilo . A list of emoji 🔥 💕 🎁 💯 🌹 for easy access with an extensive search functionality. Just click on an emoji to copy it to the clipboard and then paste it anywhere. Discord & Slack Emoji Directory, easily browse and use thousands of custom emoji for your Discord server or Slack group. Browse emoji categories such as thinking, anime, meme, pepe, blobs and more. Apple. Emojis displayed on iPhone, iPad, Mac, Apple Watch and Apple TV use the Apple Color Emoji font installed on iOS, macOS, watchOS and tvOS. Some Apple devices support Animoji and Memoji.Two Private Use Area characters are not cross-platform compatible but do work on Apple devices: Apple logo Beats 1 logo 117 new emojis are coming to iOS in October or November 2020. JÓIA FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER Ditado pelo Espírito Emmanuel . 2 INDICE JÓIA A Entrevista Aproveite O Ensejo Das Maiores Dever E Liberdade Em Cristo .Em Torno Do Futuro O Instrumento ... lhes aos olhos e às mãos valores excessivos, que lhes suscitem o desejo de se ... Frisado Jóias para Iniciantes: desenhos, fotos e uma master-class de artesanato simples feitos com suas próprias mãos. Em todos os momentos, a jóia foi um item importante no guarda-roupa de qualquer menina ou mulher. Eles são criados para decorar e enfatizar a natureza, bem como atrair a atenção dos outros. Latest News 🆕 217 New Emojis In Final List For 2021 📲 Samsung One UI 2.5 Emoji Changelog 🗓 When are the 2020 Emojis Coming to iPhone? 🤖 Android 11.0 Emoji Changelog 🍼 Now Anyone Can Feed a Baby Samsung Fixes U-V Emoji Mixup 🆕 There will be new emojis in 2021 after all 🏆 The Most Popular New Emoji Is... EmojiKeyboard.io lets you quickly copy and paste emojis. We made it because we wanted to have a handy tool which can quickly allow people to write down with their computer keyboard and let them add emojis to it.

Precisamos falar sobre: Patrick de Paula e Gabriel Menino

2020.09.17 04:20 fujfy7 Precisamos falar sobre: Patrick de Paula e Gabriel Menino

Boa noite.. Chegou a hora de falar de Patrick de Paula e Gabriel Menino..
Sério, não é sendo clubista, mas faz tempo que não vejo um futuro tão promissor de jovens no meio campo no Brasil..
Posso estar super precoce, iludido, mas tenho que levantar a moral e reconhecer o que estão fazendo.
Pra quem acompanha sabe: Patrick de Paula tem a frieza de um cara de 40 anos, assumiu totalmente a responsabilidade contra o Corinthians na final, jogou como gente grande em Itaquera e vem dominando o meio campo do Palmeiras e colocando medalhões como Ramires e Bruno Henrique no banco (não é difícil, mas o processo foi muito rápido) Desculpa, mas eu acho o estilo do Patrick igual ao do Pogba (não estou comparando o futebol, digo o estilo de jogo) e do Gerson do Flamengo..
Por outro lado, o Gabriel Menino vem de uma evolução constante, começou como lateral direito improvisado, fez uma boa atuação, mas se encontrou como 2 volante.. A grande diferença para o Patrick é que o Menino é mais marcador, comete muitas faltas, mas por outro lado, tem uma armação de jogo melhor, tem mais poder de decisão.
O que mais me chamou a atenção dos dois foi:
O Patrick veio da taça das favelas, onde pra mim estão as maiores jóias do Brasil, lá é o verdadeiro futebol, é lá onde o bicho pega, a bala come, e o mlk aprende a jogar bola de verdade.. mas o que surpreendeu foi que ele pediu pra bater o último pênalti na final do paulista, querendo ou não, ele tem 19 anos.. É o jogo que marca se o cara vai ser lembrado ou odiado pra sempre, isso pra mim foi foda!
Se eu não me engano, o Gabriel Menino quebrou/torceu a mão antes das finais do paulista, e pediu pra jogar, e até hoje usa a atadura (talvez não tenha dado tempo de recuperar ou se fizer a cirurgia vai ser afastado, sei lá eu).. Mas o foda é que o mlk não é poupado nunca, ele deve saber que é a chance da vida dele.. Quem é palmeirense ou quem acompanha sabe que ele tem uma raça da porra, da gosto de ver o mlk jogar.. É daqueles que felizmente ainda não foi corroído por dinheiro, sabe o significado..
Mesmo que os dois não dêem certo (o que sinceramente, eu acho muito difícil) é algo que me chama a atenção, é muito gratificante como torcedor ver isso acontecer, principalmente no Parmera onde a base começou a ser valorizada só há uns 3, 4 anos atrás e também que a diretoria acha que tudo é resolvido no Money, agora sabemos que não é bem assim.. (Também temos o Veron, outra grande jóia)
Enfim, eu acho que eles terão oportunidade na próxima Olimpíada, mas eu enxergo um futuro gigantesco pela frente na Europa (infelizmente) e na seleção brasileira..
Gravem esses nomes: Patrick e Gabriel Menino..
Edit: Difícil escolher entre os dois, mesmo sendo do meio campo, possuem características diferentes.. Patrick é mais ágil, tem mais frieza também, mas erra muitos passes (precisa melhorar isso) E o Menino desarma mais, tem mais chegada no ataque, mas comete muitas faltas (também precisa melhorar isso)
Se eu tivesse 100 reais pra apostar... 60 no Patrick e 40 no Menino
O futuro já é realidade
submitted by fujfy7 to futebol [link] [comments]


2020.09.05 05:48 haha-charadeur Sextou gostosinho

Boa madruga família. Essa noite resolvi marcar um date aqui em casa, somente eu e a consagrada (somos jovens e não moramos com ninguém do grupo de risco então tudo ok) sem mais nem menos já chamei ela pra vir conhecer meu quarto, um olhar aqui outro ali e já sabe né, linguão na certa.
O clima começou esquentar tiramos a roupa e pá, Malaquias tava como?! Mortaço! Não subia de jeito nenhum. Com essa desavença investi na garota fazendo aquele oral de qualidade aí tá. Malaquias resolve subir novamente, nisso eu já coloco a camisinha e jóia, adentro a minazinha e a maior vem aí... depois de quatro metidas adivinha, gozei (pqp pensei comigo, justo hj).
Depois desse b.o todo fomos para cozinha petiscamos, tomamos umas cervejas, conversamos sobre nossas vidas e boa. Papo vai e vem ela me convida pra ir a casa dela. Eu aceitei o convite e logo o pensamente do prazer já me tomou por completo, disse para mim mesmo que não poderia deixar aquilo arruinar minha noite.
Ao entrar na casa dela já nos pegamos nervoso, mão já vai escorregando e pá, comecei a masturba-la nisso Malaquias já tava pronto pro show, coloquei a camisinha e a meteção começou novamente.
A melhor parte vem agora, depois de toda essa meteção tive que dar mais atenção pra moça, coloquei meus dedos dentro dela e comecei a estimula-la, o negócio foi tão intenso e ela gozou, fiquei feliz pois é a primeira dama que faço gozar. Depois que ela atingiu seu orgasmo, ela continuou sentando em mim para que eu pudesse gozar também.
Enfim, para eu que achei que a noite ia ser péssima (pq pqp depois de quatro bombada na mina, gozar é foda) ela terminou maravilhosamente bem, transamos mais e a fiz atingir seu orgasmo.
submitted by haha-charadeur to desabafos [link] [comments]


2020.08.15 09:06 marcustrizzino TUTORIAL DE COMO PASSAR MUITA VERGONHA E HUMILHAÇÃO NO EAD

Olá turma, possível convidado (que é quase impossível de ter), gatas, papeloes mortos e seila mais o que tem pra dar oi, tudo bem com vcs?? Então, deixa eu dar o contexto para vcs, tudo começou quando eu estava dançando de fone no banheiro e meu celular caiu na privada e quebrou, como sou pobre fiquei uns 3 meses sem celular e sem participar de NADA da faculdade, ou seja, eu estava destreinado. Quando consegui voltar com o celular participei da minha primeira aula no zoom, mas logicamente eu não sabia mexer e foi aí que tudo começou, vou listar as vergonhas por número ja que foram muitas... Vergonha 1: Descobri que dava pra desenhar na tela do zoom enquanto o prof dava aula e enquanto eu desenhava várias coisas, escrevia e zuava, descobri que todos na aula estavam vendo. Vergonha 2: Não sabia que meu áudio estava habilitado e comecei a cantar, Matheus censura pq a música não é totalmente adequada a ouvidos mortais, "Eu vou dar o meu cu e meu bucetão, e nesse verão, nada mais importa, faz meu cu de xota". Só descobri depois que me mandaram mensagem no privado me avisando. Vergonha 3: Descobri também que dava pra bater palma, mandar jóia e levantar a mão virtualmente, mas quando cliquei não conseguia mais tirar e ficou la quase a aula inteira até o prof perguntar se eu queria falar algo e eu disse que não. Vergonha 4: começei a zuar e falar um monte de merda com minhas amigas no chat privado do zoom, falei mal da escola e ate mesmo que não estava prestando atenção na aula pq estava insuportável e uma das minhas amigas disse que o administrador da reunião do zoom podia ver as mensagens privadas, então eu e minha amiga começamos a falar no chat que amavamos a escola e os professores, e que a aula estava realmente muito produtiva. Vergonha bônus: Claramente depois de toda essa vergonha eu fiz uma thread no twitter pra ganhar bixcoito com a minha tristeza (com prints e tudo), mas o professor dono da aula em que passei tudo isso descobriu meu twitter e além de curtir comentou sobre nela. É isso Luba e turminha, espero que tenham feito muitos "hahas" com a minha história, pelo menos meu fracasso serve para algo. Bjs <3 
submitted by marcustrizzino to TurmaFeira [link] [comments]


2020.08.10 18:47 yemo43210 [Portuguese to English] [Poem] "João, o telegrafista" by Cassiano Ricardo

Here's the link to the poem: https://www.escritas.org/pt/t/12120/joao-o-telegrafista
[ It's a Portuguese poem from the '40, I stumbled upon it as it was translated to Italian and turned into a song by Enzo Jannacci - https://www.youtube.com/watch?v=b0B5eMQ1LGY ]
Thanks!
P.S. I also copied the text here in case it's more convenient:

I

João telegrafista. Nunca mais que isso, estaçãozinha pobre havia mais árvores pássaros que pessoas. Só tinha coração urgente. Embora sem nenhuma promoção. A bater a bater sua única tecla.
Elíptico, como todo telegrafista. Cortando flores preposições para encurtar palavras, para ser breve na necessidade. Conheceu Dalva uma Dalva não alva sequer matutina mas jambo, morena. Que um dia fugiu — único dia em que foi matutina — para ir morar cidade grande cheia luzes jóias. História viva, urgente.
Ah, inutilidade alfabeto Morse nas mãos João telegrafista procurar procurar Dalva todo mundo servido telégrafo. Ah, quando envelhece, como é dolorosa urgência! João telegrafista nunca mais que isso, urgente.

II

Por suas mãos passou mundo, mundo que o fez urgente, elíptico, apressado, cifrado. Passou preço do café. Passou amor Eduardo VIII, hoje duque Windsor. Passou calma ingleses sob chuva de fogo. Passou sensação primeira bomba voadora. Passaram gafanhotos chineses, flores catástrofes. Mas, entre todas as coisas, passou notícia casamento Dalva com outro.
João telegrafista o de coração urgente não disse palavra, apenas três andorinhas pretas (sem a mais mínima intenção simbólica) pousaram sobre seu soluço telegráfico.
Um soluço sem endereço — Dalva — e urgente.
submitted by yemo43210 to translator [link] [comments]


2020.07.27 04:51 altovaliriano Stannis Baratheon (Parte 4)

Todos os eventos do cerco a Ponta Tempestade formam um enredo ardilosamente planejado para vermos a transformação de Stannis de Senhor para Rei.
Como vimos, ainda que ele tenha se autoproclamado rei em Pedra do Dragão, Stannis se irrita ao ser chamado de Vossa Graça depois de saber da recusa dos Senhores da Tempestade em apoiá-lo (ACOK, Prólogo). Em seguida, quando Catelyn o chama de “Lorde Stannis” ao invés “Rei” ou “Vossa Graça”, Stannis ainda range os dentes, mas “não a incomodou com títulos” (ACOK, Catelyn III). Porém, após a morte de Renly, Stannis não esboça qualquer reação quando Cortnay Penrose o chama de Senhor (ACOK, Davos II).
Estes detalhes não são aleatórios e revelam a quantidade de confiança que Stannis vai adquirindo em seu destino e nas previsões de Melisandre. Eu fui um pouco precipitado ao terminar o último texto dizendo que Melisandre só passaria a usar Stannis depois de ele perder a Batalha da Água Negra. Os primeiros sinais de seus usos começam após a tomada de Ponta Tempestade. Como veremos, ainda que sejam sinais muito incipientes, estão lá.
Por outro lado, quando Stannis deixa de se sentir um pretendente que suplica o apoio de grandes senhores temos um pequeno vislumbre de como Stannis se comportaria caso viesse a assumir o governo dos Sete Reinos. Surpreendentemente, ele não é de modo algum o Stannis que Mindinho e Varys pintaram a Ned Stark no final de A Guerra dos Tronos.
Tudo ocorre em dois capítulos diferentes, Catelyn III e Davos II de A Fúria dos Reis. Os capítulos são tão parecidos que parecem narrar a mesma história duas vezes: Stannis está com Melisandre negociando termos no cerco, as negociações falham, os personagens POV prolongam o debate a procura de alternativas para o impasse e, por fim, a sombra de Stannis mata o adversário (no caso de Catelyn, a sombra surge no capítulo seguinte, mas acho que vocês entenderam...).
A narrativa, porém, não é a mesma, especialmente no que concerne ao personagem em questão. Em ambos os capítulos, o rei tem seus trajes observados por ambos os POVs. Reparamos que toda a sua roupa era muito simples, exceto nos adornos de poder – a coroa. No capítulo de Catelyn há menção às jóias na espada e no cinto que a carrega, que não se repetem no capítulo de Davos porque Stannis não a está carregando. Isso também é digno de nota, mas por razões diferentes.
De todo modo, o contraste entre os trajes e os adornos parece indicar que os últimos derivam de uma influência da mulher vermelha. Afinal, quando está fazendo uma comparação entre Stannis e Jon Snow, Melisandre critica o Lorde Comandante por levar uma vida espartana depois de ter ascendido ao cargo:
Nunca foi sábio para um governante evitar as armadilhas do poder, pois o poder flui em quantidades não pequenas de tais armadilhas.
(ADWD, Melisandre)
Entretanto, o que a repetida descrição dos trajes nos fala é que Stannis não mudou neste aspecto após ter reconquistado a lealdade dos Senhores da Tempestade. A mudança de Stannis é comportamental e política.
No encontro com Renly, ele apenas tem o apoio de Melisandre, enquanto Renly acha suficiente levar apenas Brienne. O Baratheon mais novo está ricamente vestido, acompanhado da porta-estandarte vestida em armadura azul, enquanto Stannis era acompanhado da mulher vermelha e trajava-se com simplicidade. A simbologia já denunciava a polaridade.
No encontro com Penrose, no entanto, o rei defronta seu adversário cercado de nobres com armaduras garbosas, a ponto de o próprio Stannis parecer “deslocado naquela companhia rica e régia”, salvo pela coroa, que lhe emprestava “um certa grandeza” (ACOK, Davos II). Caso não estivesse cercado por estes senhores, é bastante possível que não houvesse grandes contrastes entre Sor Cortnay e o rei Stannis.
A forma como o Rei do Coração Flamejante entra na negociação também difere nas duas cenas. Com rei Renly, Stannis inicia o debate com a intenção de ser mais brando com o irmão do que havia anunciado:
– Não negociarei com Renly – respondeu Stannis num tom que não admitia discussão. – Pelo menos enquanto ele se disser rei.
(ACOK, Prólogo)
– Não tenho qualquer querela com Renly, se ele se mostrar respeitador. Sou seu irmão mais velho, e seu rei. Desejo apenas o que é meu por direito. Renly deve-me lealdade e obediência, e pretendo conquistá-las. Dele e desses outros senhores […].
(ACOK, Catelyn III)
Entretanto, conforme rei Renly demonstra a intenção de debochar e humilhar o irmão (que também o insulta severamente, diga-se de passagem), este expressa arrependimento em ter deixado o irmão mais novo sequer abrir a boca:
– Jurei que nunca lidaria com você enquanto usasse sua coroa de traidor. Gostaria de ter mantido essa promessa.
(ACOK, Catelyn III)
Vale ressaltar, todavia, que Stannis já demonstrou aqui não ser a pessoa inflexível que falam que ele é. Renly está sendo tão intransigente quanto ele e ambo estão oferecendo a senhoria de Ponta Tempestade um ao outro. O grande problema com Renly é que ele não tem nenhum pudor em reconhecer a ilegalidade do que está fazendo, especialmente porque ele mesmo admite não acreditar na bastardia de Joffrey, Myrcella e Tommen:
Nunca suspeitei que fosse tão esperto, Stannis. Se ao menos fosse verdade, seria realmente herdeiro de Robert.
Se ao menos fosse verdade? Está me chamando de mentiroso?
Pode provar alguma palavra dessa fábula?
Stannis rangeu os dentes.
(ACOK, Catelyn III)
Ao não reconhecer as acusações de bastardia dos filhos de Cersei, Renly não só está reconhecendo que está pulando o irmão mais velho, como está admitindo sem vergonha alguma que pretende usurpar o Trono de quem ele mesmo pensa serem os herdeiros legítimos de Robert.
Diante de tudo isso, Stannis ameaça raivosamente o irmão e chega a puxar sua espada para o irmão que carregava apenas um pêssego. Essa precipitação para a arma dá lugar a uma explosão de raiva e ameaças que encerra as negociações com um tom funesto. Mais tarde, Stannis diria que o pêssego do irmão seria uma memória que levaria para a tumba, alegando que não conseguia entender o seu significado.
Apesar de que GRRM já tenha dado uma explicação para o que Renly queria com o gesto, eu tenho para mim que a razão que a experiência tenha causado forte impressão em Stannis foi a realização de que ele quis a morte de Renly a partir daquele instante. Mas a realização do seu desejo acabou custando muito de sua paz de espírito e o preenchendo com a culpa, por mais que ele procure ativamente se convencer de que não teve nada com o ocorrido:
Basta! – Stannis retrucou. – Foi vontade do Senhor da Luz que meu irmão morresse pela sua traição. Quem cometeu o ato não importa. [...]
Se alguém dissesse que eu tinha me transformado num javali para matar Robert, provavelmente acreditariam nisso também.[...]
Só Renly conseguiria me irritar tanto com um pedaço de fruta. Ele condenou-se a si próprio com a traição que cometeu, mas eu gostava dele, Davos. Sei disso agora. Juro, irei para a cova pensando no pêssego do meu irmão.
(ACOK, Davos II)
Outro fato que eu acho que pesa na consciência de Stannis é que, por mais que ele propague aos quatro ventos que sua cruzada pelo Trono não motivada pela ambição, mas pelo dever, nos sabemos que isso não é verdade.
O Rei do Coração Flamejante é lembrado por dizer que, embora não tenha escolhido ser rei, esse tipo de questão não tem relação com a vontade. Mas isso é o que ele fala quando ele é o beneficiário da situação. Quando outra pessoa é a agraciada com títulos, Stannis pensa diferentemente, como ele deixou claro para Catelyn:
[…] Eu é que devia ter sido Mão de Robert.
Isso foi vontade de seu irmão. Ned nunca quis o cargo.
Mas o aceitou. Aquilo que devia ter sido meu. Mesmo assim, dou-lhe minha palavra, terá justiça por seu assassinato.
(ACOK, Catelyn III)
Assim, quando passou a ser atormentado com pesadelos vívidos em que assassinava seu irmão, rei Stannis deve ter passado a achar mesquinhos os motivos que o levaram a utilizar dos poderes de Melisandre.
Diga-se de passagem, o simples fato de Stannis ter lançado mão de feitiçaria para eliminar Renly e Cortnay deveria ser suficiente para desmontar a sua fama de homem honrado. Requer uma grande dose de hipocrisia para que até mesmo o próprio Stannis acredite que não maculou sua autoimagem.
Na verdade, neste capítulo vemos o próprio Stannis informar o leitor que sua tão reverenciada imagem de homem rígido, justo, austero e cumpridor do dever convencia muitos, mas não a seus irmãos. De fato, Stannis justifica não ter levado suas suspeitas da bastardia dos filhos de Cersei a seu irmão mais velho porque Robert poderia desconfiar dele:
A consideração que meu irmão tinha por mim nunca passou de dever – Stannis respondeu. – Vindas de mim, tais acusações pareceriam impertinentes e interesseiras, uma maneira de me colocar em primeiro lugar na linha de sucessão. [...]
(ACOK, Catelyn III)
Mas, justiça seja feita, talvez esta desconfiança tenha sido desenvolvida quando Stannis criou o hábito de suplicar a Robert que Ponta Tempestade lhe fosse passada, de modo que tudo pode não ter passado de uma desconfiança tola de Robert.
E Stannis sempre se sentiu espoliado de Ponta Tempestade – Cersei disse, pensativa. – A sede ancestral da Casa Baratheon, legitimamente sua… Se soubesse quantas vezes foi até Robert para cantar essa canção tediosa naquele tom sombrio e ofendido que tem. Quando Robert deu o lugar a Renly, Stannis apertou tanto os dentes que pensei que fossem se estilhaçar.
(ACOK, Tyrion III)
De todo modo, o que estou especulando é que a culpa esteja pesando forte na consciência de Stannis, a ponto de que o subconsciente esteja dando combustíveis aos pesadelos sobrenaturais que lhe tiram o sono. Porém, nem mesmo isso parece ter sido suficiente para impedir o Rei e Melisandre de empregarem o mesmo truque novamente 15 dias depois.
A dinâmica com Sor Cortnay Penrose não repete os mesmos problemas e questões havidos com Renly, mas tem o mesmo desfecho. Ainda assim, curiosamente, Stannis parece menos ávido em matar Cortnay.
Não só a conversa termina em ameaças mais amenas do que o ultimato na ponta da espada proferido contra Renly, como Stannis passa o capítulo quase inteiro buscando alternativas de como lidar com o cavaleiro de forma limpa – mesmo já sabendo de antemão que poderia utilizar as sombras de Melisandre.
O castelo cairá. Mas, como fazê-lo rapidamente? – Stannis cismou com aquilo por um momento. Sob o ritmado clac-clac dos cascos, Davos conseguia ouvir o tênue som do rei rangendo os dentes. – Lorde Alester insiste para que traga aqui o velho Lorde Penrose. Pai de Sor Cortnay. Conhece o homem, creio? [...]
O que você me aconselharia a fazer, contrabandista?
(ACOK, Davos II)
Por que Stannis estava mais diplomático com Sor Cortnay do que com o próprio irmão?
Poder-se-ia alegar, em primeiro lugar, que o ritual para matar Renly havia tido um custo muito alto que o rei não desejava pagar novamente. E, com efeito, Davos nota um envelhecimento muito preocupantes de seu suserano.
E ele também parece meio cadavérico, anos mais velho do que quando parti de Pedra do Dragão. […] visto de perto, Stannis parecia pior do que Davos julgara de longe. Seu rosto tinha se tornado macilento, e possuía círculos escuros sob os olhos.
(ACOK, Davos II)
Outra razão que podemos arguir seria que Sor Cortnay era um homem fiel a seus princípios e tão teimoso quanto o próprio Stannis. Assim, o rei estava prestigiando um homem de nascimento não tão alto quanto seu irmão por conta de sua o cavaleiro estava assumindo o papel que o próprio rei havia feito no passado, com a mesma tenacidade.
Por fim, penso que é possível especular que Stannis estava mais confortável agora que Melisandre havia lhe dado os 20 mil homens que prometeram. Com uma única tacada, Melisandre deixou o rei mais confiante em suas leituras das chamas e saciou sua sede por apoio.
Qualquer que seja o motivo, os diálogos entre Davos e o rei nos dão uma dimensão de Stannis que não havíamos experimentado até então. Vemos Stannis mais calmo, agindo no comando de vassalos de sua própria região que o haviam traído e recusado em prol de um notório usurpador. Guardadas as devidas proporções, são as mesmas circunstâncias em que Stannis assumiria o governo do reino caso sentasse no trono e ele não sai fazendo justiça cega como alardearam Varys e Mindinho a Ned Stark.
Na verdade, Stannis se mostra incrivelmente flexível e pragmático. O rei fala que concede perdões que o enojam somente para obter apoio.
Os senhores meus vassalos são inconstantes até em suas traições. Necessito deles, mas deve saber como me enoja perdoar gente assim quando puni homens melhores por crimes menores.
Até mesmo a inutilidade dos conselhos dos novos súditos é encarada pelo rei com simples tom de escárnio e uma boa dose de permissividade.
As mulas adoram o som de seus zurros, por que outro motivo? E eu preciso delas para puxarem minha carroça.
A pessoa que vemos e ouvimos em nada se parece com o homem verdadeiramente justo que Varys nos acautelara a temer. Na verdade, Stannis reflete sobre a justiça que aplicou a Davos, em razão da vida de crimes deste, mas não se propõe a nenhum ato real além de dizer que não se esquecerá da ofensa.
Um bom ato não lava os maus, e um mau não lava os bons. Cada um deve ter sua recompensa. Você foi um herói e um contrabandista – olhou de relance para trás, para Lorde Florent e os outros, cavaleiros do arco-íris e vira-casacas, que o seguiam a distância. – Aqueles senhores perdoados fariam bem em refletir sobre isso. Homens bons e leais lutarão por Joffrey, considerando-o erroneamente o legítimo rei. Um nortenho até pode dizer o mesmo de Robb Stark. Mas estes senhores que se reuniram aos estandartes do meu irmão sabiam que ele era um usurpador. Viraram as costas ao seu legítimo rei por nenhum motivo melhor do que sonhos de poder e glória, e eu tomei nota do que eles são. Perdoei-lhes, sim. Estão desculpados. Mas não esqueci.
Por fim, quando nenhuma se alternativa melhor do que a feitiçaria se apresenta, Stannis volta a depositar a questão nas garras de seu “falcão vermelho”, que estava certo e lhe trouxe 20 mil homens. A confiança na sacerdotiza fica tão alta que Stannis se permite pela primeira vez reproduzir o discurso cíclico R’hllorista.
Há luzes que lançam mais do que uma sombra. Ponha-se em frente da fogueira da noite e verá por si próprio. As chamas mudam e dançam, nunca estão quietas. As sombras crescem e encolhem, e cada homem lança uma dúzia. Algumas são mais tênues do que outras, é tudo. Pois bem, os homens lançam também as suas sombras sobre o futuro. Uma sombra ou muitas. Melisandre vê todas.
[…] Será possível que Sor Cortnay procure uma maneira de se render com honra? Mesmo que isso signifique sua vida?
Uma expressão perturbada cruzou o rosto do rei como uma nuvem passageira.
O mais provável é que planeje alguma traição. Não haverá nenhum combate de campeões. Sor Cortnay estava morto antes mesmo de arremessar aquela luva. As chamas não mentem, Davos.
E no entanto precisam de mim para que se tornem verdadeiras, pensou. Há muito tempo Davos Seaworth não se sentia tão triste.
Quando Ponta Tempestade finalmente cai para as sombras assassinas de Melisandre, ficamos sabendo em segundo mão que Stannis concedeu a Melisandre permissão para queimar “o bosque sagrado em Ponta Tempestade como oferenda ao Senhor da Luz” (ACOK, Tyrion XI). Essas pequenas permissões se parecem bastante com os mimos que Victarion Greyjoy pensa estar fazendo a Moqorro cada vez que o sacerdote o ajuda a capturar um navio.
Portanto, a influência da mulher vermelha sobre Stannis vem crescendo conforme ela se mostra eficiente, de forma que Melisandre vai se tornando cada vez mais exigente em seus mimos.
Por fim, quero propor uma reflexão: Por que Cortnay Penrose se negou a entragar Edric Storm a Stannis?
– O bastardo do meu irmão deve ser entregue a mim.
– Neste caso, minha resposta continua a ser não, senhor.
(ACOK, Davos II)
­ Ele acha que Stannis fará algum mal a Edric? Ou tem a ver com o nojo que Stannis sente por bastardos (ou por aquele bastardo em específico)?
submitted by altovaliriano to Valiria [link] [comments]


2020.06.29 21:49 BardoCaminhante Cartas que nunca serão lidas...

Tudo voltou, não entendo, a alguns meses eu pensava nela quase que diariamente porém não sentia mais a mesma dor daquele dia, sábado foi legal, trabalhei de manhã e fui beber com uns amigos a tarde, foi minha primeira vez bebendo a tal da nova bebida que todos estavam comentando, realmente é tão boa quanto dizem, porém mais fraca que a normal. Cheguei em casa e meus pensamentos subitamente foram voltados para ela, por que isso ? do nada ? qual o motivo ?
Quem é ela ? Há, não a palavra para descrever a filha de Pelasgo, seu jeito doce e meigo é indescritível sua calma para prestar atenção nos mínimos detalhes é esplendido! Talvez seria a perfeição imperfeita , eu a tinha nas mãos mas o meu senso de liberdade e ao mesmo tempo irresponsabilidade me fez perder a mais lindas das cidades.
Apenas queria saber o porquê depois de meses essa sensação voltou, essa pontada no peito ? Perfura mais fundo que qualquer Jóia do Oriente... Mandei mensagem em uma rede social porém esqueci que ela não utiliza mais, recuperei seu número pois havia bloqueado tentando apaga-lá da minha vida...
Não a culpo por ter me trocado por outra, alias ela era melhor e eu apenas sempre estragava tudo... Não a tratei como a preciosa cidade que eu poderia me pousar...Acho que já pedi muitas desculpas e o leite derramado não volta mais, o que resta são lembranças...
Até quando?...
submitted by BardoCaminhante to desabafos [link] [comments]


2020.06.08 04:48 altovaliriano Shae (parte 2)

Uma prostituta aprende a ver o homem, não seu traje, caso contrário acaba morta numa viela.
(ACOK, Tyrion X)
A relação entre Tyrion e Shae começa com um tom promissor. Tyrion fica satisfeito por ter arranjado uma mulher esperta, indolente e com poucos escrúpulos. Shae arranjou um cliente abastado, zeloso e lúcido. A única coisa que vai se transformando durante A Fúria dos Reis é justamente a lucidez de Tyrion.
Agora estou livre de Tysha, pensou. Ela me assombrou durante metade da minha vida, mas já não preciso dela, não mais do que preciso de Alayaya, Dancy ou Marei, ou das centenas de mulheres iguais a elas com que fui me deitando ao longo dos anos. Agora tenho Shae. Shae.
(ACOK, Tyrion VII)
É uma situação que chegará a tal ponto de absurdo em A Tormenta de Espadas que até o próprio Varys se permite a um desabafo:
[…] Confesso que não compreendo o que há nela para fazer com que um homem inteligente como você aja tão tolamente.
(ASOS, Tyrion VII)
Eu acho que consigo responder a Varys o que há em Shae para que Tyrion haja como um bobo. Shae é a muleta na qual Tyrion se apoia durante sua ascensão á posição de maior importância que alcançou em sua vida. Tyrion ignora todos os defeitos de Shae porque ela se torna um amuleto de seu momento. Ele quer preservar Shae na mesma medida em que busca preservar o prestígio recém-adquirido.
Quando Tyrion conhece Shae à beira do Ramo Verde, o anão era apenas o mais desprezível dos Lannisters. Aquele que o próprio Tywin não se importava em enviar à morte como bucha de canhão. Porém, o aprisionamento de Jaime e a impotência de Cersei em controlar Joffrey elevam Tyrion ao terceiro lugar da Casa (Kevan era o segundo, tão importante que Tywin não pode enviá-lo a Porto Real).
Como já aleguei antes,tenho impressão de que a trajetória de Tyrion lembra aquela frase atribuída a Abraham Lincoln: "Quase todos os homens podem suportar adversidades, mas se quiser testar o caráter de um homem, lhe dê poder". A Guerra dos Cinco Reis dá e tira poder de Tyrion, mas ele sempre pode contar com o afeto artificial de Shae.
É real, tudo isso, pensou, as guerras, as intrigas, o grande jogo sangrento, e eu no centro de tudo… eu, o anão, o monstro, aquele de quem zombavam e riam. Mas agora tenho tudo, o poder, a cidade, a moça. Foi para isso que fui feito e, que os deuses me perdoem, adoro tudo…
(ACOK, Tyrion VII)
Porém, o isolamento de Tyrion no poder faz com ele confunda os serviços incondicionais da prostituta com lealdade incondicional. Tyrion desenvolve sentimentos para com Shae, mas não amor, e sim dependência.
Idiota, disse depois a si mesmo, enquanto descansavam no meio do colchão afundado, entre lençóis amarrotados. Nunca aprenderá, anão? Ela é uma prostituta, maldito seja, é o seu dinheiro que ama, não o seu pau. Lembra de Tysha?
(ACOK, Tyrion I)
Tyrion pensa em Shae como uma prostituta e faz para ela os planos que homens fazem para suas concubinas. Ele não ousa sequer sonhar em casar com ela, mas, claro, sabemos que ele pensa assim exatamente porque sabe o que Tywin faria com ela se soubesse. O que Tyrion não conta ao leitor (e nem poderia) é que é justamente porque o pai o proíbe que ele passa a projetar Tysha (seu outro amor proibido) sobre Shae.
Em outras palavras, ele não ama Shae, ele ama a sombra que Tywin jogou sobre ela e, em razão de seu isolamento no poder, Tyrion fica cada vez mais dependente desta relação. Especialmente porque, desta vez, ele não quer que as coisas terminem como terminaram da última vez.
[...] gostaria de ser sua senhora, senhor. Vestiria todas as coisas bonitas que me deu, cetim, samito e pano de ouro, e usaria suas joias, pegaria na sua mão e sentaria ao seu lado nos banquetes. Poderia dar-lhe filhos, sei que poderia… e juro que nunca o envergonharia.
Meu amor por você já me envergonha o suficiente.
(ACOK, Tyrion X)
Shae, contudo, não corresponde nenhum destes sentimentos. Até porque Shae tem pouca capacidade para empatia (uma das coisas que a série de TV difere dos livros). Talvez seja porque a prostituição a fez assim. Ou talvez ela simplesmente é assim.
De fato, quando fala sobre seu trabalho como aia de Lollys Stokeworth após ela sofrer estupro coletivo durante a revolta do pão, Shae desmerece o trauma de Lollys e só mostra nojo com a sujeira de Lollys com a comida:
Está dormindo. Dormir é tudo o que quer fazer, a grande vaca. Dorme e come. Às vezes adormece enquanto está comendo. A comida cai para dentro de sua manta e ela rola em cima, e tenho de limpá-la – fez uma cara enojada. – Tudo o que fizeram foi fodê-la.
(ACOK, Tyrion XII)
Essa resposta é particularmente interessante, pois, em um capítulo anterior, Shae havia assim reagido quando o anão lhe contou sobre a punição de Tysha:
Os olhos de Shae tinham-se aberto muito, mas Tyrion não conseguiu ler o que havia por trás.
(ACOK, Tyrion X)
Apesar de sua esperteza, Shae demonstra repetidas vezes ter uma visão míope sobre como o mundo de Tyrion funciona. Quando Tyrion afirma que não poderia casar com ela por causa de sua família, Shae aparece com uma solução brilhante: mate sua família.
– Então mate-a e resolva o assunto. Não é como se houvesse algum amor entre vocês.
Tyrion suspirou.
– Ela é minha irmã. O homem que mata seu próprio sangue é para sempre maldito aos olhos dos deuses e dos homens. Além disso, [...] meu pai e meu irmão gostam dela. […] Contra Jaime ou meu pai, não tenho mais do que umas costas tortas e um par de pernas atrofiadas.
– Tem a mim – Shae o beijou, deslizando os braços em volta de seu pescoço enquanto pressionava o corpo contra o dele.
(ACOK, Tyrion X)
Em outro momento, quando Varys estava propondo o enigma do mercenário, Shae deixa escapar em um ato falho que o homem rico era o mais poderoso:
– Numa sala estão sentados três grandes homens, um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, [...]: Quem sobrevive e quem morre? […]
Shae franziu seu lindo rosto.
– O rico sobrevive, não é?
(ACOK, Tyrion I)
Quando Shae fica sabendo que Tyrion habitaria a Torre da Mão na Fortaleza Vermelha, ela faz de tudo para manipulá-lo a levá-la também. Mesmo quando Tyrion aluga uma mansão para ela, Shae parece insatisfeita o suficiente para certas máscaras começarem a cair:
Tinha instalado Shae numa vasta mansão [...]. Queria passar mais tempo com ele, tinha dito; queria servi-lo e ajudá-lo. “Ajuda-me mais aqui, entre os lençóis”, disse-lhe uma noite depois do amor [...]. Ela não tinha respondido, exceto com os olhos. Foi aí que viu que aquilo não era o que ela queria ter ouvido.
(ACOK, Tyrion I)
Quando Shae vislumbra que o plano de Tyrion para trazê-la para o castelo era deixá-la nas cozinhas como lavadora de pratos, Shae chega a pedir para ficar na mansão (“não podia apenas me dar mais guardas?”). Tyrion a agride quando ela desdenha do poder de Tywin, ele lhe conta sobre Tysha e ela finalmente concorda.
Neste diálogo vimos Shae fazer alegações sobre seu próprio passado como forma de ameaça velada de deixar Tyrion, com clara intenção de manipulá-lo. Contudo, quando Tyrion a confronta com a versão anterior do relato, ela simplesmente mente para consertar a contradição:
Meu pai fez de mim a ajudante de cozinha dele – ela disse, com a boca se contorcendo. – Foi por isso que fugi.
Tinha me dito que fugiu porque seu pai fez de você a prostituta dele – lembrou-lhe Tyrion.
Isso também.
(ACOK, Tyrion X)
Como Tyrion logo depois conta a Shae que decidiu lhe dar o cargo de aia de Lollys, eu acredito que a garota deve ter sentido que havia conseguido persuadir Tyrion com sua insistência, ignorante de que a alternativa havia sido apresentada e arranjada por Varys.
Eu, inclusive, suspeito que foi neste momento que Shae passou a constar da folha de pagamento do eunuco, que fez isso justamente para evitar que ela entrasse na folha de Petyr Baelish. Permitam-me explicar.
Tyrion havia enganado Varys, Pycelle e Mindinho sobre seus planos com Myrcella (ACOK, Tyrion IV), mas Petyr havia ficado realmente irritado por ter sido dobrado pro Tyrion (ACOK, Tyrion V). Tyrion já está usando o túnel da mão pra visitar Shae há um bom tempo (ACOK, Tyrion III), mas certo dia Tyrion chega ouvir “o som de música pairando sobre os telhados” quando sai dos estábulos (ACOK, Tyrion VII), indicando que talvez Symon Lingua-de-Prata já estivesse espiando as redondezas.
Pois bem, Petyr deixara Porto Real para Ponteamarga algum tempo antes de Myrcela partir (ACOK, Tyrion VIII), um álibi clássico de Petyr antes de dar o sinal verde para seus planos. Após a revolta do pão, Symon já está na mansão com Shae algo que Tyrion não saberia caso não tivesse abandonado a cautela e saído a galope por Porto Real, “correndo para o seu amor” (ACOK, Tyrion X).
Mas a fala de Shae sobre Symon parece indicar que Symon é um visitante habitual desde um pouco depois de que Tyrion e Mindinho tiveram sua desavença:
– Não vai lhe fazer mal, não é? – Shae acendeu uma vela perfumada e ajoelhou-se para tirar suas botas. – Suas canções alegram-me nas noites em que você não vem.
(ACOK, Tyrion X)
Portanto, eu acredito que Symon é um agente de Mindinho que está espionando Shae a fim de descobrir pontos fracos na Mão. Alguns leitores acreditam que a própria Shae seria uma espiã de Petyr, a partir do fato de que ela estava bem informada demais sobre as atrações do casamento de Joffrey - especialmente a justa de bobos (ASOS, Tyrion II). Entretanto, estes leitores deixam passar que foi Symon quem trouxe essas informações à Shae.
Não por outra razão, no mesmo capítulo que Symon e Tyrion se encontram pela primeira vez, Varys encontra a solução perfeita para trazer Shae para a corte. Varys combina perfeitamente as necessidades ostentadoras de Shae, os desejos de Tyrion e a necessidade de tirar urgentemente a menina da linha de fogo dos agentes de Petyr.
– É melhor aia de uma senhora do que ajudante de cozinha –Shae dissera quando Tyrion lhe contou o plano do eunuco. – Posso levar o cinto de flores de prata e o colar de ouro com diamantes negros que disse que se pareciam com meus olhos? Não os usarei, se disser que não devo.
(ACOK, Tyrion XI)
Por outro lado, Lollys é a patroa ideal para neutralizar a ganância de Shae. O esquema de Varys requeria que ele contasse à mãe de Lollys (Senhora Tanda) que a aia atual de sua filha estava roubando jóias (ACOK, Tyrion X). Não sabemos se esta história é verdade ou Varys iria armar para cima da atual serva. O que importa perceber é que, uma vez que a história vazasse, Tanda provavelmente endureceria a vigilância sobre a nova criada, deixando pouco espaço para Shae causar problema roubado coisas na corte.
Como se vê, a natureza de Shae está muito aparente para aqueles ao redor de Tyrion, exceto para o próprio Tyrion. Por mais que exercite com frequência a lembrança de que ela é uma prostituta atrás de dinheiro e conforto, e de saber que a relação entre eles não passará daquele estágio de amor proibido, ele parece incapaz de fantasiar com seu afeto.
submitted by altovaliriano to Valiria [link] [comments]


2020.06.07 03:11 hawlky gritei com o veio no terminal de ônibus

Olá Luba, editores, gatas, papelões brutalmente assassinados e turma que está a ver. me perdoem qualquer erro de português aí ok?
essa história começou há algumas semanas comigo e ainda estou pensando nela. vou contextualizar tudo pra poder fazer sentido kk. um dia eu saí do serviço e andei até o ponto de ônibus, não é um local muito bem iluminado e eu não conheço absolutamente ninguém porque tem muitas empresas em volta. Cheguei no ponto de ônibus e sentei no banco da ponta, pra ngm sentar perto de mim mesmo, já que tem dois pontos um do lado do outro e não tinha ngm. dois acentos ao meu lado aonde eu estava tinha uma latinha de coca, então eu pensei: ótimo mais um motivo pra ngm vir pra perto(sim quando eu estou cansado sou muito antisocial). Então apareceu um cara do nd ele devia ter por volta de uns 50 e poucos anos, ele chegou perto de mim, chutou a latinha para o chão e se sentou quase do meu lado. claro q eu fiquei encarando no momento pq nao tinha motivo para ele fazer aquilo. então ele puxou assunto, falou um "Oi" e eu falei outro. então ele começou a falar onde trabalhava(que era uma a cima de onde minha empresa fica) e começou a contar da vida dele e da vida dos filhos. eu obviamente não falei nada sobre mim, tanto é que ele é um estranho. mas conversei um pouco com ele porque eu não gosto de ser arrogante ou mal educado. e foi isso, a princípio achei q nunca mais iria conversar com ele. nos dias seguintes ele chegava no ponto e fica me chamando até eu responder (ele falava tipo: Oi oi oi, psiu, ei vc, psiu, Oi. e ficava assim até eu responder.) eu falava um oi e ele dava um jóia com a mão. só isso já me irritava pq ele era insistente e eu normalmente estou de fone ouvindo música. então outro dia, pra completar a pérola (contexto: normalmente eu desço num ponto de ônibus que não é o terminal, para poder pegar o ônibus mais cedo, mas como o ônibus não estava passando mais cedo naquela semana, eu decidi descer no terminal para não ficar no frio), eu não apertei o botão do ônibus para descer nesse tal ponto, porque eu queria ir para o terminal. e só estava eu e ele no ônibus. quando eu vejo o ônibus parou no ponto q eu desço e na hora que eu olho o veio ta em pé na minha frente e fala assim: vc esqueceu de apertar o botão pra descer né? eu apertei pra vc. vc estava mexendo no celular e nem viu. eu em choque sem saber o que fazer desci do ônibus e fui para o ponto(deveria ter feito algo no momento que pude, mas não consegui e nem sei pq eu não fiz algo). eu fiquei com medo e raiva, pq como ele sabia onde eu descia? ele estava prestando atenção em mim? medo kkkkk então no dia seguinte pela graça de Deus tinha mais gente no ônibus e no ponto de ônibus. aconteceu a mesma coisa, ele chegou e ficou me chamando e eu ignorei. uma hora ele parou, mas ele ficava balançando o pés pra eu ver q ele estava ali. tinha uns caras conversando sobre qual o horário q o ônibus ia passar e ele levantou e falou para eles qual horário passava já que era o ônibus que nos pegavamos. então ele ficou de pé um pouco e me cutucou no braço e deu um jóia com a mão e falou oi. eu falei um oi bem grosseiro e ele falou: vc se assustou? e deu risada. então, já no ônibus eu não apertei o ponto novamente pois queria descer no terminal e como tinha mais gente no ônibus ele nem fez nd, mas olhou para trás pra confirmar se eu tinha descido ou não. chegando no terminal ele desceu e veio até mim perguntar o porquê de eu não ter descido naquele ponto. então eu falei: pq vc esta me observando? como vc sabe onde eu desço? eu nem te conheço! ele falou: mas vc não ia perder seu ônibus? vc não está se lembrando de mim não? acho que vc não está me reconhecendo. eu: eu sei quem vc é, lembro que a gente já conversou, mas eu não sei quem vc é, pra mim vc é um estranho. por acaso vc é algum tipo de psicopata pra ficar me observando? e saber onde eu desço ou não? ele repetiu mais ou menos o que já tinha falado e eu falei outras coisas parecidas com a que eu disse e por fim ele falou outras coisas que eu não consegui escutar e falou: fica com Deus. e foi embora. tinha mais gente no terminal e eles ouviram tudo. então ele não fala mais cmg e nem senta tao perto de mim. mas ainda pego o mesmo ônibus com ele todos os dias quando volto do trabalho. mas ainda estou receoso se ele ainda está me observando. mas não sei se estou com um pouco de medo ou se é peso na consciência.
ent, eu fui o babaca?
submitted by hawlky to TurmaFeira [link] [comments]


2020.05.06 19:36 livrosetal Vermelho da Cor do Sangue, de Pedro Garcia Rosado (colecção Não Matarás, Livro 2)

Sinopse
Quando um mercenário ucraniano conhecido por Gengis Khan assalta a casa do banqueiro Ramiro de Sá, além de um segurança morto e das jóias roubadas, deixa atrás de si um problema inesperado: do cofre do banqueiro foi também levado o passaporte de Valentim Zadenko, um emissário do partido comunista da União Soviética que entrou em Lisboa no dia 24 de Novembro de 1975 e aí desapareceu misteriosamente. Enquanto o inspector Joel Franco, da Polícia Judiciária, investiga o homicídio do vigilante, o passaporte torna-se uma relíquia que muitos querem deitar a mão: não só o próprio Ramiro de Sá, mas também o chefe da máfia russa, um inspector do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, um veterano do PCUS que foi camarada de Zadenko e ainda Svetlana, a filha do operacional desaparecido, que vem para Lisboa à sua procura, alertada por um angolano que estudou em Moscovo e participou no assalto. Na busca do documento, todos os caminhos acabarão, mais tarde ou mais cedo, por ir dar a Ulianov, um ex-KGB especialmente treinado que em Portugal se tornou dirigente de um grupo criminoso. Joel terá de contar com a sua ajuda para desenterrar uma conspiração criminosa que nasceu no PREC e envolveu militares revolucionários, banqueiros, assassinos … e várias garrafas de Barca Velha.
«Não Matarás» é uma série de thrillers ambientados em Portugal e com personagens portuguesas. O seu protagonista é Joel Franco, inspector na Secção de Homicídios da Polícia Judiciária que, em todos os crimes que resolve, sabe estar a vingar uma morte a que assistiu na infância.
Epub retail
submitted by livrosetal to Biblioteca [link] [comments]


2019.12.13 16:12 FilipeMiguelescritor Tesouro

Tesouro
O que é que queremos encontrar nesta vida? Um tesouro! Sim um tesouro, mas um tesouro que não sejam jóias, obras de arte, ouro… Um tesouro que justifique todas as loucuras e que faça bater forte o coração, que crie arrepios na pele e borboletas na barriga. Pois, esse não fica nas tuas mãos, mas fica mantido no teu, no meu, no nosso coração.
  • Filipe Miguel
Este texto foi retirado do livro “Amores Clandestinos”.
https://filipemiguelblog.wordpress.com/2019/06/15/tesouro-3/

https://preview.redd.it/bky9bjpu2f441.jpg?width=570&format=pjpg&auto=webp&s=b8f15ad097a0ad3d2b71d1944ad635995088e0fb
submitted by FilipeMiguelescritor to u/FilipeMiguelescritor [link] [comments]


2019.10.18 01:55 readyfortheplague Brincar de parecer ver !

E somente aquilo
veja só
olha aonde isso vai dar
na proeza da masmorra
e nem vou puxar pro meu lado
que eu olho e quase não vejo nada
nem um grão de areia ao menos
com a proibição sustentada pela recorrência
e a falência múltipla das escolha
estas mesmas escolhas que ou são negadas ou são tendenciosas
pra que no final seja sublinhado apenas a intenção promíscua de retroagir somente com o que funde ao relento
e deixando mais do que isso pra depois
uma dívida que vida nenhuma paga !
mas que esse lápis escreve e nenhuma borracha apaga
e a culpa da borracha é a mesma da mão
porque dividindo os olhos que exageram o brilho com ouro não conseguirão ver a jóia
e assim ! predizer sobre meus momentos peculiarmente vejo mesmo a razão do mundo , ou melhor , das pessoas , se sobressair sobre qualquer etimologia sobre razão ou sentimento !
submitted by readyfortheplague to u/readyfortheplague [link] [comments]


2019.10.02 03:32 readyfortheplague Este !

Este fervor que usurpa o vital da vinha
disso que de mão não minha
que um dia disse que era
numa ou outra espera
que quanto mais de erro se perdura
mais no erro se conforma e esse dura
pra nos outros dias dizer sobre estes braços
conforme tudo da mão e pés sem novos traços
e disso abdicando conduzindo a manada
de a força jóia bruta afanada
se não feito por gatunos por quem é ?
pra ter de negar meus sonos e ficar de pé !
pra nadar na burrice extrema e exagero confinado
nisso tudo que de unhas sujas mas de olho refinado
mais me diz mais sobre isso !
que é o que todo mundo espera do mundo a beira de seu porte
pra dizer que o azar de um é de outro alguém a sorte
sem provas ou medidas eficazes pra fazer este colar
mais antes morrer aos dentes do frio da ostra polar
do que de questão procedida ao enfadonho lero
pra depois ter de dizer que vai sim tudo voltar a zero
e num grito soberano me dizer que isso é merecido
que disso o que tem mais é tudo mais ou menos parecido
e eu ter de distribuir minhas fezes pela rua numa noite como uma fera
que destes trezentos e sessenta e quatro dias do ano uma numa noite zera
e aí? me diz um pouco mais sobre a prole e o que ela é
se eu vou ter de abdicar do meu sono e ter de mais uma vez ficar de pé
pra nada acontecer ! porque não tem boca viva que consiga dizer sobre
porque o rico tem dinheiro e o que não tem vai ser sempre pobre
lógica ! lógica fatigada ! pra trancar meus pensamentos numa canastra
quando vier o vento podre que a desregro da peste alastra
e nisso ir parar num outro mar sem condição de onda
quando o vigia perde o cacete e depois morre na ronda
isso é quase previsível mesmo ! por isso foi falada
e esse vento vai vir e matar a pluma alada
assim como disse este velho mendicante sujo !
pode ir por esconderijo ou por onde eu fujo
mas se nome parecido não tiver com o meu
nada do que poderia ser nos meus pés é seu
e até então eu posso ser até a queda num dia focado
pra comer de entranhas até a concórdia vir e comer um bocado !
submitted by readyfortheplague to u/readyfortheplague [link] [comments]


2019.09.10 20:03 readyfortheplague Não tinha como ser diferente

E pra quem vive
algo que seja
pra virar o broto da moda
e florescer em campo aberto
deve ser por isso que eu digo o que eu digo
porque sempre ! quando chega
é algo que já deveria ter ido !
mas pela compensação ! que seria a jóia a ser cobrada como imposto vira muito mais além
vira humilhação
sem ter de se conectar com as certezas porque isso não tinha como ser diferente
não tem outro jeito !
e eu fico pensando aqui !
ah é ! esqueci ! eu não penso ! eu apenas emito um cálculo sem sentido com palavras singularmente selecionadas pra parecer um pouco mais poético !
sinto muito ! sinto muito que você não entenda ! sinto muito ter o que dizer todo dia sem ter de perseverar na desgraça de um moribundo já condenado !
feito a veste que me cabe até o dia acabar ! feito a praga que eu sou comendo da minha carne em forma de som !
como sou fraco ! não sou capaz de compreender o pensamento abjeto ! o que difere todo mundo de todo mundo
uníssono como a chuva !
tão vivaz como a sua sapiência !
que atende pelo seu nome ! que diz o meu como se fosse maldição
e então ! eu devo me levantar e cantar uma música que foi feita apenas pro nicho mais próximo do caos !
dos que não se contém dentro de casa !
dos que paralelizam a ressonância ! conflitante eu sei !
nem parecer ter sentido !
não é uma pergunta ou uma resposta ! é o tratamento que todos têm na palma da mão ! que fazem ! por mais que pareça loucura ! fazem todos iguais !
quer dizer !
quase todos ! não me insira nesta jarra de água seca ! sem ninguém pra confrontar um padrão direto de manutenção
porque só tem aqui em baixo !
ah ! é ! esqueci ! se essas coisas aparecem aqui em baixo todo mundo morre ! que pena ! acho que ninguém percebeu ! mas já é assim !
nosso ! eu sou louco ! o galo que me disse num dos cocoricós dele !
"você é louco"disse ele !
e com razão lhe dei razão ! afinal o voto pode não fazer o rei ! mas faz um reinado !
submitted by readyfortheplague to u/readyfortheplague [link] [comments]


2019.07.05 02:17 readyfortheplague já que dito o dia até parou de se mover

e ter de dizer já que roubou na minha face
que disse isso e aquilo
que pôs a força na mão do ladrão
mas não a minha jóia
faça o que quiser
porque pra mim uma explicação basta
um movimento simples
eu não tenho de gostar apenas porque está disponível numa prateleira
e só é barato porque essa mesma prateleira está imunda com algumas baratas passando por cima
agora venha
venha com o mesmo suor da vinha
e me diga
diga o que quiser
com a faca nas costas
a culpa é minha
mais uma vez o ladrão pulou o muro de sua casa e pronto
ele é o melhor de todos
tolos fazendo a receita da tolice
não podia ser mais do que lógico
e não podia ser mais patético !
submitted by readyfortheplague to u/readyfortheplague [link] [comments]


2019.04.23 07:40 Samuel_Skrzybski STEEL HEARTS - PRÓLOGO

Uma nota pré-texto, apenas para situar melhor o leitor: na primeira parte do prólogo, que começa em "Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar", o personagem em questão é o nosso protagonista, Saravåj. Já na segunda parte, que começa a partir de "Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar", o personagem muda e passa a ser o rei da Pasárgada, Matiza Perrier. O prólogo é um contraponto entre os dois, embora o faça sem citar nomes. E se você não entendeu nada a respeito do que eu falei até aqui: dá uma olhada na introdução de Steel Hearts, se quiser, que tá linkada ai em cima.
Enfim, boa leitura! :)
[EDIT: Eu usei o underline para iniciar os diálogos porque o Reddit reconhece o travessão como marcador de tópico.]
Em um dia, ele acordou diferente do seu jeito de sempre acordar.
Ele sentiu a luz do sol em seu rosto, anunciando que a escuridão da noite já havia passado e que o céu era claro mais uma vez. Os seus sentidos despertaram pouco a pouco, como os de quem acorda de um coma após uma década de inatividade. Em um suspiro profundo, pôde sentir o odor de móveis velhos daquele quartinho arranjado e exíguo, mas inegavelmente organizado com maestria milimétrica em cada mínimo detalhe por ele próprio. Confirmou para si mesmo que estava, de fato, vivo.
Vagarosamente, os seus olhos também ganharam vida. Assim que o seu par de olhos se abriu pela primeira vez naquele dia, sua íris castanho-claro focou, sem se mexer um milímetro para a direita, sem se deslocar um milímetro para a esquerda, em uma tábua que estava fora do lugar no teto de madeira bege-clara de seu cubículo. Lhe incomodava demasiadamente aquela quebra abrupta no padrão de tábuas alinhadas e retilíneas. Namorou aquele lasco de madeira solto durante infinitos minutos. À essa altura, seu mecanismo interno também começou a funcionar e debutou a processar informações.
Ele planejou mil e uma formas de solucionar este problema que tanto lhe afligia, com a pia e ridícula convicção de que, quando tornasse àquele mesmo panorama quando o breu noturno caísse novamente, aquela tábua defeituosa continuaria ali, sem sequer ser tocada por um dedo que fosse. Talvez por cansaço físico e mental dele. Talvez por sua própria incapacidade de tecer um projeto suficientemente perfeito para dirimir o que lhe amorfidava. Ou, talvez, por não ser nada além de uma tábua antiga e quebrada. Até que, por fim, ele se concentrou exclusivamente no melódico canto dos pássaros que vinha do lado de fora. Dos presentes da natureza que ele recebia por morar naquele recinto, sem dúvida, a música dos pardais era o mais belo e mais agradável de todos.
Por todos os deuses e deusas do cosmo! Os pássaros! Os pardais-espanhóis!
Ele se levantou violentamente, repelindo para longe a sua coberta, o seu travesseiro e todo empecilho que estivesse em seu caminho, como se estivesse no ápice de sua energia diária, e se colocou, em questão de segundos, na frente da imensa janela de vidro que se localizava estrategicamente na dianteira de sua cama.
Esfregou os olhos. Depois os arregalou. Repetiu o processo algumas vezes.
Quem se colocava, como ele, à frente daquela majestosa janela, tinha uma visão privilegiada de uma enorme figueira que existia naquele vilarejo. Chamava a atenção, ao primeiro olhar, pelo tamanho. Não poderia ser diferente. Aquela árvore era um verdadeiro gigante. Ao mesmo tempo, era uma figueira muito velha, é verdade. Já deveria estar gozando da terceira fase de sua vida. De seus dois mil anos, no mínimo. Seus galhos já eram totalmente retorcidos. Sua raíz era grossa e invadia o solo que lhe rodeava, como um monstro botânico que tenta alcançar a superfície. Contudo, em contraponto, as suas folhas reluziam a vida. Todas elas. O pigmento verde-esmeralda destas era o mesmo de uma plantinha que acabara de desabrochar. Todo o seu caule era consistente e forte, sustentando com exuberância todos os seus inúmeros galhos. Seria uma calúnia atroz afirmar que, mesmo que de muito longe, se tratava de um mero agigantado pedaço de madeira oco e sem vida. Nos pés do caule da monumental figueira, existia uma pequena placa pregada junto à árvore, também de madeira, mas em tom muito mais claro. Nela, lia-se a frase em latim "Hic insignis femina forti ager deambulavit in terra" em letras garrafais, mas visivelmente pintadas com uma tinta branca ralé e desbotada, tornando as inscrições apagadas pelo efeito do tempo praticamente ilegíveis.
Todavia, ele não estava lá para endeusar aquela dádiva da mãe-natureza. Os seus olhos tinham outro eixo. Naquela árvore, muito além da fitologia e de toda tonalidade verde-vivo que lhe envolvia, existia uma verdadeira sociedade de pardais-espanhóis. Haviam vinte ou trinta famílias de pardais que levavam suas vidas nos galhos daquela grandiosa figueira já há anos. Todos eles, passarinhos miúdos, ariscos e ligeiros, características naturais de sua espécie, que levavam em suas penas tons que variavam de marrom-escuro até colorações mais acinzentadas.
Na árvore, se organizavam como se houvesse um contrato social entre eles. Como se os pardais fossem, de fato, seres pensantes, dotados de raciocínio lógico e com a capacidade de agruparem-se em um meio social concreto, previamente definido por regras a serem seguidas por todos. A figueira era a estalagem. Cada galho, uma residência. Não haviam duas ou mais famílias de pardais por galho. Em todos os ramalhos que se fragmentavam do caule, existia somente um ninho de pardal-espanhol, como se todos eles concordassem que aquele era o número ideal de famílias por galho. No raiar do dia, os pássaros se agitavam, aforando os ouvidos de quem quisesse ouvir com a sua graciosa música inerente. Neste átimo, o pássaro-mor de cada ninho voava pelo horizonte, em busca do sustento de sua parentela. E ao final do entardecer, retornava ao seu lar, socializando com os seus os ganhos do dia. Desta forma, aquele agrupamento de pardais engrenava. E só seria uma indiscutível violação de juramento afirmar que a subsistência dos pardais-espanhóis na figueira era, efetivamente, próspera, por efeito do vilão da estalagem. Um abutre.
De corpo robusto e de asas de envergadura majestosa, tinha dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta vezes o tamanho de qualquer pardal-espanhol. Era um autêntico ogro ao lado de um pardalzinho. E, ao contrário da prevalência dos membros de sua espécie, não era de aparência macabra. A plumagem de seu tronco era marrom-clara, como a das águias. E a sua coroa não era pelada, como a maioria dos abutres, que mais se assemelhavam a um morto-vivo do que a uma ave. Continha penas brancas como a neve em seu crânio. Também tinha em seu arsenal de combate garras afiadas como agulha de alfaiate, um bico longo e pontudo e um olhar que imporia pavor até mesmo em um Argentavis. O abutre lembrava muito mais uma ave de rapina do que um urubu. Localizava-se sempre no ponto mais alto da figueira, como a estrela de Belém em uma árvore natalina.
O abutre, sem dúvidas, era o amo daquela sociedade. O dono. O rei. Todos os pardais-espanhóis se viam fracos e indefesos diante de uma ave tão superior em tamanho e em força e se curvavam diante do abutre, ainda que mordendo a língua de desgosto. De todos os pássaros da figueira, o abutre era o único que não se aventurava no mundo além daquela lendária árvore em busca da sobrevivência diária. Muito pelo contrário: agia como um cobrador. Durante todo nascer do sol, sem feriado nem dia santo, o abutre voava de galho em galho, de residência em residência, de família de pardalzinho em família de pardalzinho, tomando para si uma parcela das sementes, grãos, cereais e pedaços de legumes que as famílias de pardal haviam faturado no dia anterior. Na maioria das vezes, era a metade. Por algumas vezes, entretanto, o abutre não fazia economias e se apoderava de mais - e muito mais - da metade dos alimentos de um ou outro ninho de pardal-espanhol, deixando estes reféns de sua própria sorte, suplicando aos deuses para que naquele dia o saldo alimentício do chefe da família fosse dobrado. Em troca desta colaboração forçada, os pardais-espanhóis não recebiam absolutamente nada. Nem proteção do abutre. Nem nada que dependa da solicitude do malévolo pássaro-rei. Não era justo. Mas "realidade" e "justiça" são palavras que raramente caminham de mãos dadas. O medo que os frágeis pardais tinham do abutre, tão corpulento, tão vasto, tão amedrontador, impedia-os de organizar uma revolta contra aquele pássaro das trevas. Era parte da rotina ceder metade dos seus lucros, sem mais nem menos, ao seu próprio carrasco.
E assim a sociedade de pássaros que vivia naquela louvável e anciã figueira funcionou durante muito tempo.
Até aquele dia.
Naquela manhã, tudo foi diferente.
O abutre deu início à arrecadação do alquilé dos pardais, como o de costume. Até que, após confiscar para si alguns pequenos grãos e sementes sem imprevistos, voejou até um galho que se localizava em um dos pontos mais altos do lado esquerdo da figueira.
Ali residia um pardal-espanhol solitário. Não tinha família. Morava sozinho em seu ninho. Era tão pequenino e franzino como os outros. Carregava em seu corpo penas marrom-claro, quase que idênticas às do abutre. Também tinha uma listra branca que corria por todo o seu corpo, o que lhe diferia dos demais. Ela tinha início na parte inferior de seu olho direito e só encontrava fim quando terminava o torso do pardal.
Naquela manhã, ele resistiu. Se apresentou à frente do abutre, que era um genuíno arranha-céu em frente ao passarinho, como quem se recusa a cumprir uma ordem e desafia o seu algoz. O abutre estufou o peito, na tentativa de intimidar o pardal-espanhol revoltoso. Em vão.
Antes que o abutre pudesse adotar qualquer segunda atitude visando espantar o seu adversário, o pardalzinho o atacou, em um movimento precípite e, acima de tudo, inesperado. O abutre foi lançado para fora do galho pela força da velocidade que o pardal imprimiu e os dois pássaros passaram a brigar no ar. No combate corpo a corpo, o pardal-espanhol compensava a ausência de força com uma agilidade que o abutre não conseguia acompanhar. O abutre se tornara incapaz de usar o seu tamanho e a sua robustez avantajada à seu favor. O inverso aconteceu: a grandeza física do abutre fazia com que ele fosse um alvo fácil de ser atingido por seu rival. A força, meio que o abutre usou para ser condecorado o pássaro-mor hegemônico daquela figueira durante tanto tempo, trazia junto de si a lentidão, o que fazia com que aquela ave, antes tão temida e respeitada por seus subordinados, não conseguisse inibir as investidas do nanico e veloz pardal-espanhol. O pardal nocauteava o abutre várias e várias vezes, mudando de uma direção para outra como uma flecha, antecipando os movimentos tardios de seu inimigo. O contrário não acontecia. Naquele instante, o abutre servia somente de saco de pancadas para o pardal.
A ameaça que a revolta daquele heróico pardal-espanhol representava à soberania do abutre serviu de gatilho para muitos outros pássaros residentes da figueira, também descontentes com a iniquidade daquela dura submissão, que deixaram os seus ninhos para também golpear e bicar o abutre simultaneamente. Em pouco tempo, mais da metade da sociedade de pardais-espanhóis estava ali, lutando por sua plena liberdade. O abutre tentava se defender do bando como podia. Se contorcia, esticando as suas garras freneticamente para todas as direções até o limite de sua flexibilidade, na tentativa de abater um ou outro pardal. Se já era árduo para ele engalfinhar-se com um pardal-espanhol só, guerrear contra um bando inteiro tornava-se insustentável. O abutre debatia-se em gemidos escandalosos de dor, na risível esperança de enxotar todos aqueles incontáveis pássaros para longe de si.
Até que, de tanto que insistiu e esperneou, o carrasco conseguiu prender um de seus êmulos em uma de suas garras - a esquerda. Aquele pardalzinho foi, instantaneamente, neutralizado. As unhas pontudas do abutre, que mais pareciam pequenos punhais, atravessaram a plumagem marrom-clara daquele pequeno pássaro sem lástima nenhuma, perfurando-o exatamente no centro da extensa listra branca que se avultava por todo o seu corpo, peculiaridade que lhe diferenciava de todos os outros pardais. Era ele. O pardal-espanhol rebelde. O motor daquela rebelião. O patrono dos pardais-espanhóis malcontentes com as injustiças cotidianas daquela estalagem. Aquele - o único! - que aceitou com prontidão o perigoso jogo de confrontar o temeroso abutre. Justamente ele, entre as dezenas de pássaros. O destino, perpetuamente muito irônico, pôs-se a rir da infeliz coincidência. O pardalzinho revolucionário era, de modo inegável, muito astuto. Mas nem que tivesse o quádruplo de sua resistência física, seria capaz de sobreviver estando entre as implacáveis garras cortantes do abutre. Ele não teve sequer a chance de lutar por sua supervivência. Os seus órgãos internos foram espremidos. A morte foi instantânea. O cadáver, sem embargo, continuou nos gatázios do abutre, como se fosse um troféu - ou prêmio de consolação - para o impiedoso pássaro-rei.
Os demais pássaros revoltosos, à exemplo de seu recém-falecido condutor, seguiram a bicar o abutre, com cada vez mais violência, como se não fossem meros passarinhos tênues e mansos. Mais pareciam, naquela rebelião, verdadeiros animais selvagens. O bando de pardais-espanhóis era uma máquina de guerra, pronta para esquartejar o seu inimigo a qualquer instante. Era questão de tempo até que o abutre tivesse o mesmo trágico fim do pardal causador de toda aquela anarquia necessária. Do pardalzinho que ele acabara de tirar a vida friamente. O destino, por sua vez, não tardou muito. O abutre já mal tinha forças para para estrebuchar, reconhecendo pouco a pouco o seu melancólico e penoso porvir. E este não podia sequer pleitear a vida por suas habituais injustiças. Todo aquele sofrimento do abutre era íntegro. Merecido. Conveniente. Depois de tanto atazanar os pardais daquela figueira, era a hora do acerto de contas.
Em um movimento descontrolado, um dos pardais-espanhóis mais exaltados em meio àquela calorosa confusão bicou o comprido pescoço do abutre ferozmente, estourando com retidão cirúrgica sua veia jugular. O golpe foi fatal. Morte instantânea. A morte, inegavelmente, é juiz. Se a vida, por muitas vezes, favorece aos maliciosos, a morte, sui generis, jamais falha. Pune a todos, sem distinguir. Um jato de sangue arroxeado jorrou da goela do abutre, manchando com aquela seiva honrosa boa parte dos pardais que estavam em torno do pássaro sucumbido quando a bicada da vitória foi desferida. A revolução dos pardais estava completa. Não havia mais carrasco. Não havia mais verdugo. Não havia mais medo, nem aluguel. Enfim, o abutre libertou o corpo sem vida do passarinho revoltoso de suas garras e, simbolicamente, todos os pardais que integravam aquela sociedade.
O monumental corpo ensanguentado do abutre e o defunto esmagado do pardal-espanhol rebelde caíram lentamente pelo ar, lado a lado. E tocaram o chão exatamente no mesmo instante, fazendo valer, mais uma vez, uma velha máxime da vida: quando o jogo acaba, todas as peças, por mais diferentes que sejam entre si, voltam para a mesma caixa, sem se queixar.
Ele assistiu tudo de camarote.
"É tão estranho. Os bons morrem antes", ele pensou consigo mesmo.
Ele, então, voltou-se para a sua cama. Deu meia-volta, despiu-se dos trapos velhos que usava para dormir e vestiu o seu traje de batalha mais nobre, que levava uma enorme capa vermelho-vinho às costas, que recaía por quase toda sua armadura de ferro medieval, a qual ele também envergou. Sentiu-se, como sempre, mais são portando aquela farda solene. Olhou por intensos segundos para o seu próprio reflexo no espelho que havia em frente à cabeceira, com um ar aristocrata de confiança. Apoderou-se, ademais, de duas espadas que estavam encostadas no pé dianteiro de sua cama. Uma banhada à prata e outra banhada à bronze, tinham a estatura, à grosso modo, moderadamente menor do que uma vassoura comum. De lâmina mais fina e de peso mais leve em comparação com as espadas universais dos templários, colocou suas duas gládias nas bainhas que também carregava em suas costas. Por fim, deixou o seu quartinho amanhado, organizado como nunca, exceto pela tábua desprendida no teto de seu cubículo - aquela amaldiçoada tábua! - fechando a porta amadeirada deste para jamais tornar a abri-la.
O vento, enfim, soprava à seu favor: era tempo de ressureição.
Em um dia, ele acordou como sempre costumava acordar.
De ressaca. Sentia em seu crânio pontadas de dor, que iam e vinham. O cenário ao seu redor denunciava o motivo de seu mal-estar: infinitas garrafas de vinho e de licor vazias em torno dele, além de incontáveis taças douradas, também vazias ou consumidas somente até a metade. Ele despertou em um magnificente trono real dourado, produzido tendo o ouro puro como sua matéria-prima e decorado com jóias preciosas, coloridas e resplandecentes - havia tido o seu sono ali naquela madrugada, sentado. Aquele trono dourado era o ponto mais alto daquele salão. Tanto que, era preciso subir alguns degraus para chegar até ele - não por acaso. A ideia era, de fato, representar o ápice da soberania que um mortal poderia desfrutar. O lugar mais alto que alguém poderia ocupar na pirâmide social.
Ele, com os olhos entreabertos e com os movimentos anormalmente vagarosos, aparentando ainda estar um pouco ébrio, começou a esparramar com as mãos as cartas de baralho que estavam no braço direito do trono real, deixando com que algumas caíssem ao chão. As cartas, espalhadas por todo salão real, retratavam as várias e várias jogatinas e capotes da madrugada anterior, os quais ele mesmo fomentou. Ele havia patrocinado uma farra regada à bebidas alcoólicas caras na madrugada daquele dia, junto de seus companheiros mais íntimos. Por mais uma vez. Os eventos alcoólatras apadrinhados por ele eram corriqueiros, praticamente diários.
Ele seguia espalhando as cartas do baralho, até que uma lhe chamou a atenção. Era um rei. Um rei de espadas. Não era o roupão vermelho do rei, fragmentado em mandalas, que lhe atraía. Muito menos as espadas coloridas que ele segurava em cada uma das mãos. Nem o bigode, nem o cabelo, nem a coroa. O olhar. Os olhos daquele rei eram diferentes dos demais. Eram intimidadores. Transbordavam malícia e davam um sentido maquiavélico àquela carta. De todos os reis do baralho, aquele, sem dúvidas, era o mais perspicaz. O que tinha a maior agudeza de espírito. O mais astuto, talentoso, inteligente e toda e qualquer palavra que remete a um privilegiado intelecto ardil. Ele pegou a carta em suas mãos e apreciou-a por alguns instantes, rindo. Até que, levou o rei de espadas até o braço esquerdo do trono do rei, onde havia uma taça de ouro da noite anterior, cheia de vinho até a metade. E então, mergulhou a carta no vinho, por diversas vezes, repetidamente.
_ Beba, reizinho. Beba. Que, por hora, é o melhor que se faz. O álcool foi inventado pelo homem para suprimir o tédio diário, você sabe bem. As mulheres também vão te distrair com seus corpos, se você assim quiser. Mulheres e bebidas. É por isso que a nossa passagem terrena vale a pena, não? Beber para as mulheres. Beber por causa de mulheres. Beber junto das mulheres. Afinal de contas, o mundo está de braços abertos para te servir. Os miseráveis tem a honra de dividir uma geração contigo, alguém tão genial, tão brilhante, tão divino. É dever deles a solicitude para com você, não acha? Grandes conquistas virão, reizinho. Muito maiores do que qualquer ratazana européia um dia já pôde imaginar. Mas enquanto as glórias ainda não se concretizam, beba. Somente beba. Até desaparecer-lhe o fígado.
Uma voz juvenil, neste momento, cessou o seu delírio abruptamente.
_ Meu rei! Mil perdões por interromper-lhe!
Era um jovem e raquítico soldado. Parecia nervoso por estar em presença de alguém tão importante. Tinha como suas vestes o uniforme-modelo dos cavaleiros da Ordem do Templo, utilizado nas cruzadas do século anterior. Todavia, distinguia-se destes pela tonalidade azul-marinho substituindo a vermelho-sangue e por conter um brasão com a letra "P" no lado esquerdo do peito de sua armadura.
_ Já interrompeu, ora! Por que me solicita o perdão, asno?
_ Então perdoa-me por lhe solicitar o perdão, meu rei, se isto ameniza o meu deslize. Vim somente lhe transmitir um recado da rainha. Ela me pediu para vir lembrar-lhe que está quase na hora de discursar para o povo. A rainha e os membros da elite já estão na sacada do castelo. Sua louvável presença é a única que falta para o início do discurso real.
_ Ah! Claro! Já havia me esquecido. A ressaca me veio mais forte do que o habitual nesta manhã. E se não estivesse tão em cima do horário, queria embriagar-me antes do enunciado. Você já imaginou? Tente imaginar, se o seu retardado intelecto não te impedir. Discursar completamente bêbado! O povo, sem dúvidas, acharia fantástico! O que achas, capacho? Dê-me sua opinião, por mais desprezível que seja.
Enquanto falava, ele levantou-se e desceu os degraus do trono real com dificuldade, cambaleando.
_ É... Seria memoroso! Com toda a certeza!
_ És um bom rapaz, soldadinho. Você é dos meus, eu tinha a pia convicção! Inclusive, acho que a sua figura é a que falta para completar nossas diversões alcoólicas que ocorrem depois do último badalar do sino. O que me diz, meu companheiro? Licor e vinho à vontade depois do horário dos mortos! Está de acordo?
_ Verdadeiramente, meu rei?
O soldado recém-formado olhou para ele com o olhar mais inocente que se pode imaginar.
_ É claro que não, capacho! Onde já se viu? Uma barata do exército imperial feito você em meio aos mais finos nobres! Tira-te as patas do meu salão real, imbecil!
O soldado saiu imediatamente da sala privada do rei, trêmulo. Ele, em todo o tempo com um largo sorriso no rosto, gargalhou de suas próprias anedotas. Ainda assim, a informação que o seu subordinado lhe transmitiu estava correta. Faltavam poucos minutos para o discurso semanal do rei para os seus populares. Era mais um domingo gelado de inverno. Ele seguiu pelos cômodos e corredores do Castelo de Woodyard. Conforme caminhava, escutava um coro uníssono, em êxtase, que se tornava mais forte conforme ele se aproximava da sacada do castelo.
_ Vida longa ao rei! Vida longa ao rei! Vida longa ao rei!
Ele, enfim, chegou até a sacada. O povo ali presente, em frente ao castelo, engrossou ainda mais o hino quando o viu. Com os braços abertos, de aparência amigável e singela, ela acenou para o povo que estava abaixo, como sempre. A rainha, idem, estava ali, sempre à sua direita, ora envolvida pelos braços dele, ora também saudando o público.
_ Bebi o dobro do que você bebeu nesta madrugada, meu amor. E despertei três horas antes de ti. Cômico, não acha?
_ A força feminina! É o que nos mantém no poder!
Sua esposa era uma mulher de quase trinta anos de idade. Os efeitos do tempo, entretanto, inegavelmente eram muito gentis com ela. Aparentava ser dez anos mais jovem. A rainha chamava a atenção, sem sombra de dúvidas, pela beleza física: mulher de corpo esbelto, e de rosto tão atraente quanto.
Ele, enfim, deu início ao pronunciamento real. De cunho populista e com muita convicção em toda frase que proferia, ele exaltou a laicidade de sua monarquia. Alegou que não admitiria, nem por cima do seu cadáver, que a coroa compartilhasse o governo com o Papa. Como o de costume, apontou o dedo para a Igreja Católica, condenando-a pelo massacre estúpido daqueles que ela julgava como infiéis. Posteriormente, reiterou o seu compromisso com as camadas mais baixas da sociedade. Se auto-intitulou como o pai dos pobres. Alegou que reduziria o preço do trigo pela metade. E ganhou ainda mais a simpatia de seus ouvintes quando comunicou que distribuiria pães de forma gratuita em alguns pontos dos vilarejos de seu reino, garantindo o direito básico da alimentação para todos e todas. Penhorou, também, que os soldados, tanto os da elite quanto os do império, seriam valorizados e teriam a sua dignidade garantida. Afinal, segundo ele, na sua visão de governabilidade não existiam reis e capachos. Existiam seres humanos buscando um bem comum. E, finalmente, levantou a sua principal bandeira: garantiu que, enquanto ele tivesse a coroa sobre a sua cabeça, homens e mulheres seriam iguais. Os mesmos direitos. As mesmas funções. Os mesmos papéis na sociedade. Exaltou com as mais fascinantes palavras o arquétipo da mulher independente e empoderada. Discorsou primorosamente durante quase trinta minutos sobre a suma importância da equidade dos sexos em um meio social evoluído.
O povo foi ao delírio, como já era costumeiro no pós-dicurso do rei. O barulho era ensurdecedor. Toda gente gritava o seu nome à todo pulmão, confiando cegamente na benevolência de seu líder. Ele era uma unanimidade entre o povo. Não havia uma alma viva que abrisse a boca para reclamar de sua forma de reinar. De suas ideologias modernas. Era um verdadeiro rei hegemônico. O mais perto que se havia de Deus em solo terreno. Ele, por sua vez, sequer lembrava do que havia dito em seu discurso alguns minutos antes. Sua cabeça estava em outro lugar. Nas nuvens. Só conseguia pensar nas fartas moedas da corrupção caindo sobre suas mãos - que financiavam esbórnias, orgias, bebedeiras e afins suas, da rainha e de seus aliados mais próximos - e no futuro promissor de seu império populista, que em um dia não tão distante haveria de se expandir para os quatro cantos da Europa, em um reinado jamais visto antes na história da humanidade.
Assim que terminou o seu enunciado ao público, em meio aos berros que manifestavam apoio ao seu reinado, ele arregaçou a sua manga esquerda, revelando o mesmo o rei de espadas de outrora, a mesma carta que ele havia embebido no vinho. Ele havia a escondido em seu uniforme imperial quando saiu do salão real.
_ Vês isso, reizinho? Isso não é nada. É um grão de areia perto do império gigantesco que Júpiter te reserva. Terá o mundo aos seus pés, é inevitável. A ordem cósmica quis assim. As próximas maltas vão aprender sobre o seu nome. Sobre tudo que te envolve. E até sobre o seu sabor de licor preferido. E você? Você só deve saber o seu próprio nome. É o que mais importa. Reizinho, é assim que gira o ciclo da vida: manda quem pode, obedece quem tem juízo. E eles tem. Você vê cada vez mais de perto que tem. O universo deve respeito por aquele que já nasceu abençoado. E ninguém vai ser capaz de te impedir, reizinho. Ninguém. Nem mesmo Deus.
Obrigado por ler e aguardo ansiosamente pelo feedback! :)
submitted by Samuel_Skrzybski to EscritoresBrasil [link] [comments]


2018.12.18 18:11 4in4t92 Se vão à ourivesaria levem a vossa melhor roupa sim?

Rant/story time
Domingo passado precisei de ir levantar uma encomenda que mandei entregar em loja. Como era coisa de meia horita, o centro comercial fica a uns 10 minutos de carro nem eu nem o meu marido nos preocupámos muito com o que vestir (estávamos simples, jeans, ténis e uma camisola de malha).
Depois de levantarmos a encomenda e quando já estávamos a caminho da saída o meu marido viu um relógio que gostou na montra de uma ourivesaria. Decidimos entrar e como estamos na altura do Natal até as ourivesarias que normalmente estão às moscas estavam cheias de gente.
Estavam três pessoas atrás do balcão, todas elas ocupadas a atender clientes e por isso tivemos que esperar um bocadinho. A simpatia era notória e o atendimento exemplar. Estavam literalmente a bajular os clientes.
Quando finalmente chegou a nossa vez a funcionária que estava livre olhou para nós, ignorou-nos, nem nos cumprimentou e entrou lá para dentro. As outras duas funcionárias estavam a atender um casal e portanto ficaram livres ao mesmo tempo assim que este saiu. Nós dissemos boa tarde e em troca recebemos a resposta mais seca de sempre, onde tinha ido aquela simpatia toda?
O meu marido lá disse que queria experimentar um relógio que tinha visto na montra e apontou. No sitio para onde ele apontou só estavam relógios dos 400€ para cima e elas automaticamente torceram o nariz, mas uma delas lá soltou um "eu vou lá". Pegou na chave e com uma cara muito contrariada abriu a montra e perguntou qual deles era. Quando o meu marido disse "é o da direita da fila de trás" ela em vez de tirar o relógio simplesmente respondeu "este relógio é 459€" dando a entender que não tinhamos dinheiro para o comprar. Eu e o meu marido fizemos um gesto de sim com a cabeça e dissemos que sabíamos, que tínhamos visto a etiqueta pela montra antes de entrarmos (de referir que elas nunca indicaram o preço de nada aos outros clientes). Mesmo assim o meu marido teve que voltar a dizer que o queria experimentar.
Pelo meio disto tudo tinha entrado um senhor na casa dos 50 anos, com um polo polar estampado com o nome e logótipo de uma empresa qualquer. As outras duas funcionárias que já estavam ao balcão voltaram a ir lá para dentro como se não o quisessem atender, ficando então o senhor à espera enquanto via as vitrines.
Foi neste momento que o meu marido tinha voltado a pedir para experimentar o relógio. A funcionária finalmente tirou o relógio do stand e em vez de auxiliar a coloca-lo no pulso ou de lhe dar o relógio para a mão, fez mais um gesto do género queres ver vês na minha mão.
Foi a última gota de água. Dissemos que para estarmos a ser atendidos como se nos tivessem a fazer um favor, e estarem a olhar-nos de lado não íamos deixar lá o nosso dinheiro de certeza, e que haviam mais três ourivesarias dentro do centro comercial. O outro senhor que já se tinha apercebido da situação e que foi igualmente ignorado pelas outras duas funcionárias concordou e disse que também ia embora.
Acabámos por sair dali os três à conversa e fomos à mesma ourivesaria, onde fomos muito bem atendidos. Por sorte eles tinham o mesmo modelo que o meu marido queria e por isso conseguimos compra-lo, já o o senhor afinal era o dono da empresa e estava a comprar relógios para oferecer aos funcionários pelo Natal, comprou uns quantos timberland (tudo somado deve ter atingido um valor bastante alto).
Foi o rir quando estávamos a ir embora e vemos o senhor aproximar-se da entrada da primeira ourivesaria só para dizer algo nas linhas de "acabaram de perder uns 2000€ em vendas". Nós acabámos por acenar com o nosso saquinho também. A cara delas sim foi priceless.
O que é engraçado no meio disto tudo é que os clientes que lá estavam antes de nós e que foram tratados a pão de ló só deram foi trabalho a experimentar um monte de jóias e relógios para no fim dizeram "vamos pensar melhor" e foram-se embora sem levar nada. Quem realmente foi com intenções de gastar dinheiro foi completamente discriminado.
O pior disto tudo é que nem estávamos mal vestidos, estávamos simples mas perfeitamente dentro dos padrões. Então mas agora é preciso ir de salto alto e com 2kg de maquilhagem ou de blazer e sapato de vela à ourivesaria?
submitted by 4in4t92 to portugal [link] [comments]


2018.11.14 18:12 Emanobetter27 Doutor estranho pode ser o Loki

Ao ver muitas e muitas vezes Vingadores 3 pra vê se acho algo percebi que no início quando Thanos pede o teceract ao Loki, a cena em que ele tira o teceract do nada fazendo o aparecer em suas mãos para dar ao Thanos é idêntica à cena do Dr. Estranho dando a jóia do tempo. Sem contar que o doutor iria dar sua vida com um dos filhos de Thanos para proteger a jóia do tempo e que ele deixaria o Tony e o Peter morrerem, mas não abria mão de proteger a Jóia, pois ele próprio não poderia entregar a jóia sendo o protetor incondicional da mesma. Então outro deveria dar, mas Thanos poderia desconfiar de algo se fosse um outro que entregasse e não o próprio Doutor. E de alguma forma em um elipse eles encontraram no espaço no caminho para titan Loki e ele e o Doutor trocaram de indentidade após terem elaborado aquele "falho" plano do Senhor das Estrelas. E a suposta morte de Loki pode ter "caído como uma luva" para essa narrativa. O que acham dessa teoria? Falha? Faz sentido? Ou seria uma viajem ?
submitted by Emanobetter27 to MCUTheories [link] [comments]


2018.02.13 03:27 pedrothegrey O Insignificante

I.
Borges era uma homem desimportante. Bebia constantemente, mas não o suficiente para que seus colegas ou esposa achassem problemático. Fumava quando se encontrava nervoso ou ansioso, excedia os limites de velocidade de quando em vez, e deixava a toalha molhada em cima da cama após o banho. Seus vícios pareciam sob seu controle, a todo tempo.
Era calado, culto, porém deveras alienado. Tratava bem de sua esposa. Trazia, para ela, doces nas datas românticas e jóias sem brilho no Natal. Ela não tinha nenhuma surpresa mas nenhum desagrado sério com Borges. Quando conversava com suas amigas casadas, sobre seus maridos que por vezes eram infiéis, apostavam somas obscenas de dinheiro nos cavalos, se metiam em brigas de rua, e até ameaçavam socos, sentia uma curiosidade mórbida pelo pecado, ao mesmo tempo em que aceitava ser melhor por ter Borges por perto.
Ele nunca fora genial no colégio. Na quinta série, percebeu que quando estudava muitas horas para uma prova, conseguia o mesmo resultado que quando não havia aberto os livros. Conseguiu ingressar em uma universidade, muito embora não fosse a que ele tinha vontade de entrar. Falhou alguns exames, foi aprovado sem grandes honrarias, no meio de tantos outros. Foi efetivado no lugar onde fazia estágio, uma pequena empresa no subúrbio, e na única noite em que saiu com os colegas para o happy hour, conheceu sua mulher. Desposou-a três meses depois, quando tinha 25 anos e um carro popular.
Quando seu pai aposentou-se, o convidou para que conversassem e bebessem algumas cervejas. Borges beijou a sua esposa com os lábios secos e disse adeus, ela disse um adeus afetuoso, embora não tivesse desgrudado o olho da televisão. Ao chegar no sitio de seu pai, Borges se depara com uma mesa, do lado de fora da casa, com uma maleta comprida aberta sobre ela. Seu pai estava sentado ao lado da mesa, limpando a espingarda recém-comprada. Mostrou, orgulhoso, ao filho a compra que havia feito.
— Quer fazer um teste? — perguntou. — É mais fácil do que parece, vou colocar um alvo ali pra você.
Bebeu de um gole o resto da cerveja que estava na lata, e a colocou a 20 metros de Borges. Este, pegou a espingarda com um desajeito quase infantil, posicionou a coronha nos ombros e mirou na latinha. Antes de atirar olhava para o pai, como se dissesse "Tem certeza que essa é uma boa ideia?", e era correspondido por um olhar ansioso e debochado. Tomou coragem, talvez toda a que tinha, e deu o tiro. O barulho machucou seus ouvidos, sentiu o coice poderoso da arma em seus ombros, o cheiro de pólvora queimada, o calor do cano. Era um equipamento bruto, robusto, porém tinha certa dose de beleza, de graça, o suficiente para que Borges pudesse apreciar.
Ao se aproximarem do que se sobrou da lata, Borges ficou espantado com o resultado do tiro. Ele havia obliterado um objeto com o toque de um dedo. Havia naquele momento, para o observador cuidadoso, uma pequena centelha em seu espírito, um brilho no seu olhar, tão sutil que poderia ser confundido com o reflexo da luz. Sutil, efêmero, porém presente.
Dirigiu seu carro cinza para casa, e no caminho sua mente só pensava naquele momento mágico, naquela sensação que nunca havia sentido antes. Ao leitor desavisado, pode-se ter a impressão de que uma paixão se fez presente em sua alma, mas Borges era incapaz de um vício tão eloquente. Era, acima de tudo, uma obsessão fria, muda e nada tinha de viril. Quando chegou em casa, encontrou sua esposa na mesma posição de algumas horas atrás. Após tomar um banho rápido e trocar sua roupa cinza por uma caqui, se deixou cair na cama, mas sem soltar demais o corpo. Se sentiu feliz pela esposa não ter prestado atenção na tolha molhada que estava debaixo de seu pé.
— Meu amor, acho que vou comprar uma arma e caçar. — disse, enquanto seus dedos passeavam, sem cor, pelo rosto da mulher.
Sua esposa moveu os olhos suavemente para o lado e olhou fundo nos seus olhos, e não vira naqueles olhos cinzas, pálidos, um ímpeto para uma ação tão... tão... diferente. Colocou, gentilmente a mão em seu rosto, e também o acariciou levemente. Seus olhares se cruzaram por um período que levaria até Zelda e Scott Fitzgerald ao desconforto. Depois dessa pequena eternidade, ela só podia concluir que ele havia descoberto o leve descontento que tinha por sua previsibilidade, e, como havia lançado essa ideia sem nenhum contexto, achou que o fazia meramente para agradá-la. Seus lábios esboçaram um sorriso delicado e dormiram após o costumeiro beijo de boa noite.
II.
Na semana seguinte, chega em casa com uma maleta comprida, igual a do seu pai. Sua mulher estava fazendo café e quando olhou para o marido, deu um grito e um pulo para trás, quase derrubando o café. Ele mostrou a ela todos os acessórios que havia comprado, ensinou os nomes de cada parte da arma, deu uma breve explicação sobre o funcionamento dela e por fim, deixou-a segurar a arma. Ao falar, parecia haver memorizado toda uma cadeia de informações, na sua voz não havia uma empolgação genuína, era como se estivesse lendo uma revista técnica de tiro.
Sua esposa ouve tudo, mas sua visão adquire um aspecto onírico. Ela se sente confusa e com uma certa náusea de toda a situação. Não só ele havia comprado uma arma — o que ela nunca aprovaria — como ele o havia feito, embora de maneira planejada, nesse ímpeto remotamente (e ela recuava quando sua mente pensava nisso) adolescente. Ele estava no banho e só se deu conta de que não havia ninguém falando quando ouviu o barulho da chaleira. Dormiu numa perturbação a nível espiritual. Todos os finais de semana de Borges eram passados no campo de tiro. Treinou como uma máquina, não vibrava quando acertava na mosca — o que ocorria com surpreendente frequência — nem esbraveja quando errava o alvo. Anotava seus pontos e mostrava para a esposa quando chegava em casa. "Que bom, amor", dizia, sem olhar para o resultado. Borges nunca notou, pois não tirava os olhos do resultado.
Certa vez, estava limpando a espingarda na sala, quando um pombo se equilibrou nos fios do poste. Continuou limpando a arma e montou-a novamente. Se levantou do sofá e viu o pombo estático, pendurado nos fios. Uma estranha força se havia apoderado dele, não mais tinha controle sobre seu corpo. Sem compaixão, sem vileza, atirou no pombo. O barulho ressoou forte na sala de estar, ouviu o grito da esposa que correu para a sala, os vizinhos que gritavam e perguntavam se estava tudo bem. Mas ele não tinha ouvidos para isso, se concentrou no som pesado da bala atingindo o peito da ave, o bater descontrolado de asas na tentativa desesperada de tentar voar, o som seco e desolador da queda do corpo do animal no chão. Todos esses pequenos momentos ecoavam em Borges, enquanto sua esposa tentava explicar a situação para os vizinhos. Borges tinha uma nova (se é que podemos chamar assim) vontade e sua esposa tinha o que conversar na próxima reunião de esposas.
III.
Meses depois. Eram 19h e Borges não havia chegado em casa. Sua mulher não sabia como reagir a essas duas horas de atraso. Ele bateu de carro? Fora assassinado? Parou para beber? Mas tudo isso parecia tão irreal que sua preocupação tinha um gosto quase sobrenatural. Teria Borges absorvido aquele delicado ímpeto transgressor em sua alma? Tinha ele essa capacidade, esse tipo de caráter anárquico? Havia sumido com sua arma e carro, este, fora encontrado abandonado na estrada, ao lado de uma mata que se estendia até o horizonte. Borges havia sido regurgitado pelo subúrbio? Tudo que se sabia era que havia entrado — e era consenso geral de que se havia perdido — no meio da mata. Novamente é enfatizado ao leitor que aquela decisão não fora tomada de ímpeto, no meio do trânsito, com o rádio ligado. Não existia uma paixão que o carregava até a natureza, nem um ódio que o pudesse mover para fora do subúrbio. Não tinha um amor tão expressivo pela mulher para que o impedisse, tampouco era indiferente a ponto de não deixar um pequeno bilhete no carro, que dizia:
Adeus, meu amor. — Borges.
Dormiu no chão nos primeiros dois dias. As formigas, os mosquitos e outros tantos insetos inomináveis se banqueteavam com ele. Depois de uma noite infernal de picadas e mordidas, acordava molhado de orvalho, com os primeiros raios de sol que cortavam entre as copas das árvores. Conseguiu fazer uma pequena cabana de folhas e galhos, e isso o ajudou imensamente. No quarto dia, quando acordou com um pouco menos de dor, pegou o rifle e o carregou, e ficou esperando, na beira de um lago (que havia encontrado no dia anterior) um alvo que pudesse atirar. Mas nada apareceu, nesse dia ou no outro, ou no outro, ou... Seu estoque de comida — alguns enlatados e biscoitos — havia acabado e, além de frutas, nada tinha para se alimentar. Desistiu de tentar caçar e simplesmente se sentou à margem do rio, observando o fluxo da água, ouvindo o farfalhar das folhas, o canto dos pássaros. Entrara num estado de transe insensível, parecia que a vida era constituída somente daquele momento e daquele lugar, mas não sentia nisso uma alegria particular. Apenas aceitava como um fato. Lembrou-se da quinta série, sem nenhuma razão especial.
Seu coração acelera quando ouve o barulho de um galho seco que se quebra, e uma pata que se leva ao chão devagar. Ele sente aquela mesma força invisível que leva seu braço à arma. Engatilha suave e lentamente a espingarda. A capivara mostra seu corpo grande e desajeitado e se inclina para beber água. Do outro lado da margem, Borges, como um animal selvagem, sem vileza, sem piedade, age como se todo o mundo esperasse que ele agisse. Toma uma decisão como se não pudesse tomar outra, uma decisão, que não foi necessariamente irrefletida, mas destituída de toda culpa moral. Não havia outra coisa a se fazer.
Borges aperta o gatilho. Passara dias sem ouvir nada além de grilos e água corrente, e o barulho da explosão foi nuclear. Quase podia sentir a onda de choque que avassalava a paz da mata. Os pássaros voaram imediatamente e o som de suas asas ecoou junto da explosão por alguns segundos. A capivara fora atingida no coração, seus olhos se arregalaram e ela caiu para o lado, tesa, nas margens do lago. Borges arrastou o animal até a cabana, cortou sua barriga e retirou suas entranhas. Se sujou da cabeça aos pés, não tinha nenhuma noção do que estava fazendo. Retirou um pedaço de carne do animal, com um pouco de couro no exterior e o colocou na fogueira, que demorou algumas horas para que conseguisse acender. Fez isso da mesma maneira que praticava tiro, fazia anotações mentais dos movimentos que foram eficazes e dos que não foram, etc. Comeu a carne dura e sem gosto do animal. Mas isso não importava, pois não o havia matado pela carne, nem tinha alguma satisfação especial na comida.
A noite caiu e, enquanto a fogueira crepitava em seus suspiros finais, o calor das brasas aquecia a cabana de Borges. Se deitou e dormiu um sono sem sonhos. No meio da noite, ouviu um barulho ao longe, o som de uma lembrança distante, um som caótico e bem sutil, quase delicado. Se levantou sem fazer barulho e saiu da cabana, com a arma em mãos. Estranhas luzes vinham em sua direção, e o barulho ficava cada vez mais alto.
Como um animal encurralado, correu para a beira do lago, onde a lua talvez pudesse iluminar os agressores, e onde podia ter um alvo claro. As luzes continuavam o seguindo quando chegou no lago. Um som de algo desesperado se ergue no meio do caos, um som agudo, suave, gracioso, mas tenso e trêmulo. Borges tropeça e cai no lago, e uma estranha criatura pula em sua direção, emitindo esse som tão estranho. Por puro reflexo evolucional, instinto de autopreservação, Borges atira na criatura.
O clarão da explosão revela o rosto de sua esposa. Que cai nas margens do lago, ao lado de Borges. Seu rosto que, outrora, exibia uma vida pálida e fria, agora tinha um aspecto vivo e aterrorizado. O sangue da mulher corre pelo rio, fazendo uma mancha que tem um brilho macabro sob a luz da lua. Borges retoma sua consciência anterior, daquele pequeno subúrbio e das regras daquele mundo. As luzes que o seguiam param nas margens, nada mais são que policiais à sua procura, provavelmente liderados pela esposa na busca.
Borges sente de novo a força incontrolável e aponta a arma para os policiais. Mas algo novo surge sob a luz da lua. Borges sente. Sente algo, sua alma é tempestade, ímpeto, sua filosofia, o martelo, seu deus, ele mesmo e a sua vontade é a da lua. Coloca o cano da espingarda na boca e aperta o gatilho. Sua nuca explode, deixando no rio uma mancha de sangue, que finalmente, faz companhia à esposa.
submitted by pedrothegrey to EscritoresBrasil [link] [comments]


2016.12.13 16:12 throwaway098986 [Desabafo] Acho que a minha namorada não gosta de mim

Namoramos há quase 2 anos.
Tenho 29 anos ela tem 27 anos.
Eu trabalho muito tempo na empresa, tenho muito pouco tempo livre, o pouco tempo livre que tenho quero passar com ela.
Muitas vezes acabo por não sair com os meus amigos para estar com ela.
Ela está desempregada há 2 anos tem o tempo todo livre e mesmo assim desmarca imensas vezes comigo para sair com as amigas.
Nunca deixei de lhe dar atenção ligo mal saiu do trabalho, mando mensagens o dia todo... Ela raramente tem a iniciativa de enviar mensagens e responde sempre de forma seca.
Parece que ela não se importa comigo, se eu estou bem, se o meu dia correu bem, não tem muitas demonstrações de afecto não é carinhosa.. Não gosta de dar as mãos em público sou eu que tenho sempre a iniciativa de beijar..
Raramente tenho sexo com ela, no inicio (primeiros 5 meses), era quase todos os dias agora se fizermos 2 vezes por mês já é muito.
Em 2 anos de namoro nunca me deu nenhum presente, tudo bem que ela não pode porque está desempregada, mas uma coisa barata já é algo. Eu já paguei duas viagens (uma delas para fora), ja paguei algumas contas que ela tinha pendentes, pago quase sempre todos os jantares, já dei uma jóia da pandora, e um vestido para ela levar ao baptizado do sobrinho.
Já falei muito com ela sobre isto ela diz que vai melhorar mas nunca melhora.
submitted by throwaway098986 to portugal [link] [comments]


2015.12.29 05:53 SUPAR7 Aqui têm os piropos mais conhecidos.

Os melhores piropos (http://www.1001blogsforum.com/t9636-os-melhores-piropos)
Capítulo 1 - A rima rica
  1. Ó flor, dá para pôr?
  2. Ó musa, dás-me tusa.
  3. Ó bomboca, mostra a toca.
  4. Ó doce, era onde fosse.
  5. Ó beleza, deixas-ma tesa.
  6. Ó boneca, vai uma queca?
Capítulo 2 - O trocadilho
  1. És como um helicóptero: gira e boa.
  2. Ó fêvera, junta-te aqui à brasa.
  3. Ó jóia, anda aqui ao ourives.
  4. Ó 'morcona', comia-te o sufixo.
  5. Ó filha, aperta aqui que é mais fofo.
  6. Ó jeitosa, és mais apertadinha que os rebites de um submarino.
  7. Andas na tropa? É que já marchavas...
  8. Se fosses um barco pirata, comia-te o tesouro que tens entre as pernas.
  9. Tantas curvas e eu sem travões.
  10. Usas cuecas TMN? É que tens um rabinho que é um mimo.
  11. A tua mãe só pode ser uma ostra para cuspir uma pérola como tu.
  12. Tens um cu que parece uma cebola, é de comer e chorar por mais.
  13. Só queria que fosses uma pastilha elástica para te comer o dia todo.
  14. Tanta carne boa e eu em jejum.
  15. Se o teu cu fosse um banco, fazia uma poupança a taxa fixa.
  16. Ó filha, agora já percebo porque é que tenho a talocha nas mãos.
  17. Belas pernas, a que horas abrem?
  18. A ti não te custava nada e a mim sabia-me tão bem.
  19. Até davas uma boa actriz mas és muito melhor atrás.
Capítulo 3 - A metáfora
  1. Ainda dizem que as flores não andam.
  2. Ó filha, com um cuzinho desses deves cagar bombons.
  3. Ó filha, levavas aí com o martelo pneumático que fazíamos o túnel do Marquês num instante.
  4. Que bela anilha que tu tens, deixa lá enroscar o meu parafuso.
  5. Só custa a cabeça que o resto é pescoço.
  6. Que rica sardinha para o meu gatinho.
  7. Anda cá a cima afagar-me a cobra zarolha.
  8. Ó filha, o teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim.
Capítulo 4 - Os ordinários
  1. Ó filha, fazia-te um pijaminha de cuspo.
  2. Quem me dera que fosses um frango para te meter um pau no cu e fazer-te suar.
  3. Só queria que fosses um cavalinho de carrossel, para te montar todo o dia por 50 cêntimos.
  4. Ó filha, anda cá a cima que até a barraca abana.
  5. Contigo filha, era até ao osso.
  6. Metia-te inteira até que ma mordesses.
  7. Posso tocar no teu umbigo da parte de dentro?
  8. Ai de ti que eu saiba que esse cuzinho anda a passar fome.
  9. Ó filha, enchia-te essa ***** toda de massa.
  10. Só não tenho pêlos na língua porque tu não queres.
  11. Ó filha, anda cá a cima que ele não se vai chupar sozinho.
  12. Tens uns olhos tão lindos, tão lindos, que te comia essa ***** toda.
  13. Caiava-te toda de branco por dentro.
  14. Contigo era até encontrar petróleo.
  15. Ó linda, sobe aqui à palmeira e anda-me lamber os cocos.
  16. Ó faneca, anda cá que o pai unta-te.
  17. O teu cu parece uma moto-serra, não há pau que lhe resista.
  18. És tão quente que até se me grelham os tomates.
  19. O meu amor por ti é como a diarreia, não o consigo manter cá dentro.
  20. Diz-me quem é a tua ginecologista para eu lhe ir chupar o dedo.
  21. Com esse cu, estás convidada a cagar na minha casa.
  22. Contigo até me tornava mineiro, só para te abrir os buracos todos.
  23. Podia ficar um mês a cagar trapos mas comia-te com roupa e tudo.
  24. Posso pagar-te uma bebida ou preferes em dinheiro?
  25. Ainda dizem que a fruta verde não se come.
  26. Ó filha, lambia-te o que tu mais gostas.
  27. Ó fofa, agarra aqui na corneta.
  28. Agarra-me aqui no tarolo, ó princesa.
  29. O teu pai deve ser arquitecto, tens um cu que é uma obra.
  30. Ó filha, agarra aqui com a mão.
  31. Que rico filho. Anda cá cima que eu faço-te outro mas mais bonito.
  32. Ó sol, sopra aqui na minha flauta pingante.
  33. Ó boneca, era a estrear.
Capítulo 5 - A subtileza do povo
  1. Ia até ao fim do mundo por um dos teus sorrisos, e ainda mais longe pela outra coisa que podes fazer com a boca.
  2. Estou a lutar desesperadamente contra o impulso de fazer de ti a mulher mais feliz do mundo.
  3. Sabes onde ficava bem a tua roupa? Toda amarrotada no chão do meu quarto.
  4. Só a mim é que não me calha uma destas na rifa.
Capítulo 6 - Os religiosos
  1. Diz-me lá como te chamas para te pedir ao Menino Jesus.
  2. Ó filha, queres ir ao céu? Sobe os andaimes que o resto do caminho é por minha conta.
  3. Ó filha, se não acreditas que Deus é feito de carne e osso sobe os andaimes e anda cá tocar-me.
  4. Abençoados pais que conceberam esta coisinha linda.
  5. Por acaso és católica? É que tens um cu que valha-me Deus.
Capítulo 7 - Os espirituosos
  1. Se eu estivesse no teu lugar, tinha sexo comigo na boa.
  2. Ó menina, cuidado que prendeu-se-lhe a parte de baixo da saia no manípulo da betoneira.
  3. Essa roupa fica-te muito bem, mas eu ficava-te melhor.
  4. Se cair, já sei onde me agarrar.
  5. Acreditas em amor à primeira vista ou tenho que passar por aqui outra vez?
  6. Anda cá que te vou dar uma sessão de raboterapia.
  7. Não sou muito bom em matemática mas, 1+1 = 69?
  8. Não te esqueças do meu nome, mais logo vais gritá-lo.
  9. Minha senhora, troco a sua filha por um piano, assim, podemos tocar os dois.
  10. És um bilhete de primeira classe para o pecado.
  11. Queria ser um patinho de borracha para passar o dia na tua banheira.
  12. Deves estar tão cansada, passaste a noite às voltas na minha cabeça.
  13. Posso não ser bonito como o Brad Pitt, nem ter os músculos do Schwarzenegger, mas a lamber sou uma Lassie.
  14. Com uma montra dessas, imagino como é o armazém.
  15. Ó filha, contigo era até partir os pés à cama.
  16. Ó doce, anda cá a cima fazer uma festinha ao tareco.
Capítulo 8 - Quem desdenha...
  1. Não és nada de se deitar fora, já tive pior e a pagar.
  2. Podes não ser a rapariga mais gira, mas com a luz apagada também é bom.
  3. Ó filha, tens carinha de modelo mas o teu cu é um continente.
  4. Com umas bóias dessas o Titanic não tinha ido ao fundo.
  5. Com um piso desses deves ser mais rodada que a 2ª Circular.
Capítulo 9 - Quando a canção falha
  1. Ai não queres? Eu vi logo, gorda como estás é porque não suas muito.
  2. Mau? Mau o quê? Disse algum disparate ou chupas aqui mesmo?
  3. És mesmo esguia, pareces uma sereia: metade mulher, metade baleia.
  4. Ó filha, com menos cu também se caga.
  5. Ó filha, se o teu cu fosse uma torrada, precisava de um remo para o barrar.
  6. Também só queria saber o teu nome para quando bater uma saber em quem estou a pensar.
  7. Ó filha, só não sou teu pai por quinhentos paus.
  8. Ó filha, com esse atrelado só com carta de pesados
submitted by SUPAR7 to piropos [link] [comments]


Esmaltação com Blue mais joia The Emoji Movie Full Movie 2017 English - Animation Movies ... HE-MAN EPISÓDIOS DUBLADOS - YouTube Mini Porta Jóias: Muito Fácil - Sem Viés - YouTube O QUE TEM A ROSA (Paquito & Jóia)

Emoji Keyboard Online - Best Emojis to Copy and Paste

  1. Esmaltação com Blue mais joia
  2. The Emoji Movie Full Movie 2017 English - Animation Movies ...
  3. HE-MAN EPISÓDIOS DUBLADOS - YouTube
  4. Mini Porta Jóias: Muito Fácil - Sem Viés - YouTube
  5. O QUE TEM A ROSA (Paquito & Jóia)
  6. Vc é jóia de valor nas mãos do oleiro , alegre-se !! - YouTube

Sign in to like videos, comment, and subscribe. Sign in. Watch Queue Queue Participe do grupo fechado no Facebook 👇👇👇 https://www.facebook.com/groups/dicasepassoapassolorrayneatelier/ 💟💟💟 Medidas e Materiais 1x Sintético ... This video is unavailable. Watch Queue Queue. Watch Queue Queue Thanks for watching, and Please enjoy, like, share & subscribe today!' The Emoji Movie Full Movie 2017 English - Animation Movies - New Disney Cartoon 2019 JUNTANDO AS MÃOS com O Que Tem A Rosa - Aula Iniciante - Sanfona - Duration: ... SAUDADES DE SÃO FRANCISCO (Paquito & Jóia) - Duration: 3:36. Paquito & Jóia 18,697 views. Vídeo de Thapta Kelli